“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Fev222010

PLAYMOBIL
Levei anos para ser construída...
peças e mais peças
peças sobrepostas
em cores diversas
fui armada em branco
amarelo, azul
cor-de-rosa....
muitos tons pastéis...
roxo? Não !
menos ainda o vermelho

Não me pouparam a transparência
nuanças da inocência...
com matizes bem comportados
fui  montada, afinal
com a engrenagem  se movendo
como manda o manual... 

Hoje , o playmobil de um metro e setenta
já não funciona tão bem
depois de alguns tropeços
um sudoeste a bombordo
um intemperismo físico-químico
duas ou três erupções
uma topada mais forte
e uma estocada  no peito
muitos blocos se perderam pelo caminho
outros tantos , se deslocaram
e não consigo reagrupá-los...
tento buscar seus espaços
mas são lacunas estreitas
ou largas demais
então ... o brinquedo para
não consegue caminhar
não reconhece seus mecanismos... 

Preciso desconstruir o tal modelo
esparramar  todas as peças no chão
e dar início à outra montagem
adicionar uma  nova conexão
jogar as obsoletas  no lixo
usar cores estapafúrdias
vários matizes de branco
misturar vermelho, preto, roxo e lilás
remontar tudo , de ponta à cabeça
me refazer , usando minhas próprias mãos
minhas verdades , minhas convicções
sem convenções emprestadas
sem regras ditadas
sem o discurso
do sonho alheio 

assim... verei no espelho
alguma coisa sem definição
sem rótulo pré-estabelecido
com peças a mais
com
peças faltando
andando  de lado
de repente, pra trás...
não importa...
não existe perfeição,
não existe regra pra criação
nem certezas definitivas
há um percurso contraditório
em meio ao caos , ao purgatório
cercado de esperanças e expectativas
traçado em linhas mal definidas
apoiado em sonho e tesão
há a concepção, da minha própria vida   

Fabi · 2 vistos · 0 comentários
Jan282010

O BRINQUEDO



Ainda não era natal

Mas o bom velhinho, muito  distraído
Enviou o presente , antes da hora
Levou um troço esquisito
Um brinquedo diferente
Não era feio , nem bonito
Mas tinha cara de gente
 
Era alegre e divertido
Falava , andava e ria 
E servia, pra ocupar o tempo

Mas um dia o moleque acordou
Buscando coisas mais interessantes
Ganhou outro mais engraçado
Um ainda mais criativo
Dois ou três... tão envolventes
Um oitavo, irresistível
E sequer se lembrava
Daquele brinquedo antigo
 

Mas dos outros  também enjoou
E recorreu ao armário
Decepcionou-se ao encontrar
O objeto esquecido...
 

Estava todo esfacelado

Com as peças fora do lugar

Parecia machucado
Já não servia pra brincar
Não  era nada resistente...
 

Não fora feito de plástico
Não fora feito de pano
Não tinha peito de aço...
Papai Noel , equivocado....
Dera-lhe, um ser humano.
 

Fabi · 3 vistos · 0 comentários
Jan052010

MISCELÂNEA

Fosse  o tom dessa emoção

Mais que rima,

Verso, prosa


Fosse mais que poesia

A cadência da sensação

Desse gosto que me assola

Dessa sede que não mato

Dessa fome que não sacia

Desse gesto que denuncia

Desse olhar que ora me trai 


Faço então a poesia

Na cadência da emoção

Falo em verso o que me assola

Numa prosa de sensação

Mato a sede com a rima

Minha fome que denuncia

Esse gesto que ora me trai

Fabi · 7 vistos · 0 comentários
Dez262009

TRANSITORIEDADE
 
Passa o tempo
Tudo muda
Muda o tempo
Eu também mudo

A cor do esmalte
Meus quereres
Meus amores 

Tudo muda
Tudo passa

Até as dores
Até lembranças
Inesquecíveis 

Muda a moda
A cor do jeans
O meu cabelo
Também muda 

O namorado
O vizinho
Até o porteiro
Também muda 

A voz dos filhos
O trabalho
O e-mail
E a poesia 

Os amigos
Os segredos
Os desejos 

Tudo passa
Tudo muda
Muda o tempo....
Passa tudo

Fabi · 11 vistos · 0 comentários
Nov152009

DISSONÂNCIA

O que fazer com a canção

Que nasce sem melodia

Onde não se acha o tom

O compasso e a poesia

Conjunto de cifras áridas

Mistura  de sentimentos,

Ritmo  que confunde os ouvidos

E  enlouquece o coração

Sinfonia sem nexo, sem sentido

Música  que ecoa muda

Destoante da partitura

Sem motivo que justifique

Um concerto ou recital

Frangalhos duma harmonia

Sem nota musical   

Fabi · 28 vistos · 3 comentários
Out182009

É PRECISO FUGIR ....

antes que a lança
atinja seu alvo 

antes que a vontade
silencie a razão 

antes que a barragem
não contenha a vazão 

antes que o peito
se torne clausura 

antes que  armadilha
segure a raposa 

antes que a barricada
não iniba o fuzil

antes que a loucura
vença o medo

antes que o sol
desvende segredos 

antes que minha boca
se encontre com a tua   

Fabi · 26 vistos · 0 comentários
Out172009

ESTEREÓTIPOS



Não sou um pássaro taciturno
De vôo solo , noturno
Eu sou um pouco mais 

Não sou santa, não sou pura
Rainha obscura
Eu sou um pouco mais 

Não sou hedônica, nem vazia
A personificação da alegria
Eu sou um pouco mais 

Não sou Afrodite, deusa da beleza
Uma Vênus de cama e mesa
Eu sou um pouco mais

Não sou criança inocente
Brinquedo inconseqüente
Eu sou um pouco mais 

Não sou feia, não sou bela
As cores da aquarela
Eu sou um pouco mais

Não sou fôrma, nem lazer
Objeto de prazer
Eu sou um pouco mais

Não sou a mocinha da novela
Romântica e singela
Eu sou um pouco mais 

Não sou doce e meiguinha
Uma cara bonitinha
Eu sou um pouco mais

Não sou cipreste carrancudo
Rebelde com o mundo
Eu sou um pouco mais 

Não sou gerente nem diretriz
A melhor protagonista, uma grande atriz
Eu sou um pouco mais 

Não sou ungüento, não sou vacina
Uma adorável  menina
Eu sou um pouco mais 

Não sou dublê, substituto
Boneco de ventríloquo
Eu sou um pouco mais 

Não sou pobrezinha, nem iludida
Uma deslumbrada  com a vida
Eu sou um pouco mais   

Não sou um gênio, grande conhecedor
A empáfia de um ditador
Eu sou um pouco mais 

Não sou a lógica maniqueísta

Nem tratado pacifista
Eu sou um pouco mais 

Não sou fêmea indulgente
Porta-voz de gemidos
Depósito de libido,
De líquido quente 


Eu sou gente.
 

Fabi · 21 vistos · 0 comentários
Out112009

RIACHO
Desviei minha vertente, 
desejava um oceano...
desagüei em ribeirão... 
virei parte de outras águas
um curso sem precisão
tão distante , tão distinto
um córrego sem afluente,
sem nascente  e  sem foz
de margens erodidas
e  cascatas sem voz 
sedimentos depositados ...
(o assoreamento  da vida)
riacho sem correnteza
de meandros sinuosos
sem seixos, sem beleza
sem nada... 

Faço então uma barragem
provoco uma inundação
espalho todas as águas
buscando  nova direção... 
há um mar à minha espera
muitas trilhas, muitas quedas
dispenso a calmaria...
quero encostas,  cataratas
desbravar mata virgem
abrir sulcos na rocha dura
e persistir nesta  trajetória
aguardando a tão desejada  hora
de encontrar meu  Oceano bravio
um orgasmo do eu - rio
numa deslumbrante pororoca 

Fabi · 23 vistos · 0 comentários
Set272009

AS MÃOS

As mãos que ora se erguem
a lançar-te dolorido adeus
são as mesmas que sanaram feridas
e foram acalanto, pros prantos teus
contiveram a hemorragia profusa
que vertia da tua alma confusa.... 

ungiram as chagas do teu peito
acolheram  teu coração
aplacaram a solidão dos dias
te deram alegrias, curaram traumas...
E nas noites fugidias
foram pouso, do teu prazer...
traduziam caladas em carícias
o que as palavras não sabiam dizer 

As mãos que ora escrevem
solitárias na noite fria
enxugam também as tormentas
que emanam do meu degredo
tentando emergir  em vão
o naufrágio da fantasia 

Seguirão insones pela vida
guardando nas linhas , segredos
marcas invisíveis e intensas
deixadas pelos teus dedos
das vezes que se encontraram
e se fundiram como aço ao  calor
Nas minhas mãos faltam pedaços
deixados por teu desamor 

Fabi · 38 vistos · 0 comentários
Ago222009

A TRUPE


Desisti de entender as pessoas
Creio , ser isso , coisa mesmo de profissão
De psicólogo, preto-velho , cartomante
Taxista, vizinho fofoqueiro, porteiro
Isso é  coisa de mãe, 

E se não levo jeito pra coisa
Me acostumei só , na solidão
Das palavras e da imaginação
A misturar essa gente que passa por mim
De forma perene , permanente
Ou num breve lapso de tempo
E transformá-las em criação 

As faço personagens...
Dum picadeiro tragicômico
Um teatro manicômio,
Escondendo os  ratos na cocheira
Com um letreiro de neon,
Exibindo a palavra VIDA 

E do melhor e pior de cada um...
Crio uma puta , um mendigo
Um débil mental ou um monge
Um gigolô ou nazista
Um entusiasta, um idealista
Um poeta, um bêbado
Um romântico incurável,
Uma ninfeta insaciável
Um tarado de pau pequeno
Um viciado megalômano
Um gay bem resolvido
E um político ladrão. 

Misturo  neurose e insatisfação
Beijo na boca, pegação
Mentira , manipulação
Inocência , utopia
Devaneios de pé no chão

Me frustro, no entanto
Num the end, que nuca chega
Num happy end impossível
E tanta falta de originalidade     

Fabi · 22 vistos · 0 comentários

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