Nem me haviam crescido os pelos pubianos, quando
inventei essa História de inventar histórias. Acho que os primeiros personagens
foram, a menina abandonada, uma freira, um anjo atrapalhado e sei lá quantos
mais, precisaria remexer meus manuscritos decorados em nuanças de cinza- fungo
e suportar uma dezena de espirros para saber com precisão. Nessa época, ainda
sobrevivia uma amiga invisível que residia na goiabeira do fundo do quintal.
Com ela dividia angústias, medos, inspirações.
A fada que deu vida à floresta e
lutou contra o desmatamento foi orgulho da minha mãe que mostrava o texto a
quem nos visitasse. Como autora e diretora da peça, travesti-me de jacarandá
secular em papel crepom verde e marrom, ao lado do Alexandre , o menino mais
alto e bonito da sala, para atuar com falas bombásticas em defesa da natureza,
sim, claro, eu era a protagonista. A heroína da saga de cinqüenta minutos. Às
meninas mais bonitas que eu, designei papéis insignificantes, Márcia Cristina,
Sueli e Leila, eram apenas margaridas com diálogos óbvios de figurantes. O
antipático do Ivan ganhou o papel do lenhador vilão. E como Ana Laura era minha
amiga, foi a fada que nos deu o dom de falar e protestar . ( Muito bom lembrar
o nome deles !) . Mas minha “obra prima” suscitou a desconfiança da professora
que achou a trama madura demais para uma garotinha de 11 anos, também por isso,
acho, ganhei conceito C, na peça que achincalhava o governo militar em plena
ditadura. Como funcionária pública, ela quis se proteger naquele “C” tão
injusto. Arrogante, não me intimidei, até porque achava mesmo que o texto sobre
os militares era plágio e fraco demais. Mas hoje, acredito que minha
preocupação ecológica antes mesmo dos cataclismos do Al Gore era uma espécie de
premonição ou genialidade precoce... Era nada... , a arrogância da juventude se foi há
muito...
A poesia, como catarse e compensação (eu nunca
soube dançar) estava sempre presente. Dessa época tem o “homem, torto homem, sujo,
cujo, um homem nasci...”Não, não era uma tendência lésbica, é que naquela época, homem e ser humano eram sinônimos (as mulheres de um modo geral ainda estavam na servidão doméstica e/ou sexual, estavam?), tinha a “Carta ao meu filho” que parecia um arrependimento por aborto provocado, mas era só uma satisfação ao filho que eu preferia não ter, para poder adotar os que já estavam no mundo e não tinham quem os amasse. Ainda bem que mudei de idéia, do contrário não teria meus filhotes.
Lamento que meus antigos versos impactantes não me
sensibilizem mais. Acho que cresci nos últimos trinta e sete anos! E claro, o
mundo mudou (apesar da sacanagem capitalista ser ainda pior ). Mas a capacidade
de criar não se exauriu, depois da pequena órfã abandonada encontrada pela
freira no leito do rio, centenas de outros personagens surgiram na argamassa da
imaginação e ganharam vida na ponta da esferográfica, no clec clec da máquina
de escrever e na facilidade do teclado. Putas, santas, meninos de rua, gays,
galãs de olhos verdes, mulheres jovens, maduras, idosas, heróis e vilões,
convivem no limiar de valores tão paradoxais quanto próximos.
Anita e Antero frequentemente invadem meus sonhos,
ou pesadelos ? A saga que se passa no sertão de Minas ainda não foi agraciada
com um “The End’.Tuca e Bira me são muito queridos, “Santinha” que chorou uma
única vez, lágrimas de sangue ao ver o filho bandido morto, as loucas , Telma,
Estela, Mary e Clara...estes e outros , aguardam no nitrogênio.
O que me assusta, porém, são meus personagens de
carne e osso. É essa gente que passa por mim e que facilmente transmuto. Que caracterizo,
que atribuo qualidades e defeitos a revelia, que rotulo. Além de perigoso, é
perverso. Preconizo falas que não foram ditas, antecipo atitudes, visualizo
gestos, transformo vermes em seres maravilhosos e com alguns cliques os faço
vermes novamente. Atribuo beleza à almas vazias, esvazio a nobreza de alguns
onde falta empatia. Em segundos, príncipes viram sapos, e vice- versa. Invento
dignidade para hipócritas que me são queridos, visto com um figurino dourado
corpos esquálidos e disformes. Ensurdeço propositalmente, para que eu mesma
seja a dona da voz que quero ouvir. Faço reis, vassalos, escravos, santos,
vampiros, concubinas e meretrizes.
Sei, no entanto, que isso nada tem a ver com um
dom especial, já que todos nós criamos os personagens que queremos, aqueles que
atendam às nossas necessidades imediatas, aqueles que podem nos proporcionar
algum tipo de bem estar, seja para satisfazer a vaidade de uma auto-estima em
queda-livre que deseja o outro como acessório e alegoria , seja para usufruir
dos serviços prestados , seja para preencher lacunas.
Somos todos criadores e criaturas de alguém. Por
isso, talvez, com esse poder “divino” atribuído a nós, por nós mesmos, assassinamos
os “personagens-pessoas” que não nos servem mais. Com um tiro a queima roupa,
com requintes de tortura e crueldade, com desdém ou um suicídio induzido,
apertamos a tecla “Del”.
Não nos importa a dor e a agonia que provocamos, esquecemos que nossa fantasia é preenchida com seres portadores de alma e CPF. Na página em branco seguinte,iniciamos outras montagens com novos personagens , que um dia,mataremos também. Esquecemos porém, que nosso poder divinal, não nos protege e não impede de sermos assassinados por um outro deus igualmente criativo.
Na História, não existem “personagens”, não existem ídolos, ícones do bem ou do mal, no caminho rochoso que trilhamos cotidianamente, permanece eternamente presente, mesmo que na memória, mesmo que em lembranças amareladas e distantes, gente de verdade, pessoas imperfeitas e distintas a quem dispensamos e das quais recebemos, indulgência, respeito, condescendência, confiança e amor. E é só por isso que a vida vale a pena.