“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Visualização dos artigos postados o: 01/01/2001

Maio112012

DIVAGAÇÃO


Entre a emoção e a razão

há um tanto de cólera,

de tédio,

inércia,

e insensatez.

 

Um oceano negro e revolto

A imagem do fato,

e o que seria

 

Entre a emoção e a razão,

há o medo incontestável,

a possibilidade constante,

a angústia,

o naufrágio,

o talvez.

 

Há vida,

quiçá a morte.

Um ponto final de frase,

a consumação

( h ) a felicidade ( ? )


Há o conhecido

o previsível....


....e o monstro sagrado da descoberta

 

Caminho tortuoso,

(sinuosas linhas)

Fascínio e desafio

 

Certezas

implausíveis

 

Razão e Emoção,

faces de uma mesma moeda...

medalhas tão distintas...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Fabi · 3 vistos · 0 comentários
Abr192012

HISTÓRIA & histórias


 

Nem me haviam crescido os pelos pubianos, quando inventei essa História de inventar histórias. Acho que os primeiros personagens foram, a menina abandonada, uma freira, um anjo atrapalhado e sei lá quantos mais, precisaria remexer meus manuscritos decorados em nuanças de cinza- fungo e suportar uma dezena de espirros para saber com precisão. Nessa época, ainda sobrevivia uma amiga invisível que residia na goiabeira do fundo do quintal. Com ela dividia angústias, medos, inspirações. 

A fada que deu vida à floresta e lutou contra o desmatamento foi orgulho da minha mãe que mostrava o texto a quem nos visitasse. Como autora e diretora da peça, travesti-me de jacarandá secular em papel crepom verde e marrom, ao lado do Alexandre , o menino mais alto e bonito da sala, para atuar com falas bombásticas em defesa da natureza, sim, claro, eu era a protagonista. A heroína da saga de cinqüenta minutos. Às meninas mais bonitas que eu, designei papéis insignificantes, Márcia Cristina, Sueli e Leila, eram apenas margaridas com diálogos óbvios de figurantes. O antipático do Ivan ganhou o papel do lenhador vilão. E como Ana Laura era minha amiga, foi a fada que nos deu o dom de falar e protestar . ( Muito bom lembrar o nome deles !) . Mas minha “obra prima” suscitou a desconfiança da professora que achou a trama madura demais para uma garotinha de 11 anos, também por isso, acho, ganhei conceito C, na peça que achincalhava o governo militar em plena ditadura. Como funcionária pública, ela quis se proteger naquele “C” tão injusto. Arrogante, não me intimidei, até porque achava mesmo que o texto sobre os militares era plágio e fraco demais. Mas hoje, acredito que minha preocupação ecológica antes mesmo dos cataclismos do Al Gore era uma espécie de premonição ou genialidade precoce... Era nada...  , a arrogância da juventude se foi há muito...

A poesia, como catarse e compensação (eu nunca soube dançar) estava sempre presente. Dessa época tem o “homem, torto homem, sujo, cujo, um homem nasci...”Não, não era uma tendência lésbica, é que naquela época, homem e ser humano eram sinônimos (as mulheres de um modo geral ainda estavam na servidão doméstica e/ou sexual, estavam?), tinha a “Carta ao meu filho” que parecia um arrependimento por aborto provocado, mas era só uma satisfação ao filho que eu preferia não ter, para poder adotar os que já estavam no mundo e não tinham quem os amasse. Ainda bem que mudei de idéia, do contrário não teria meus filhotes.

Lamento que meus antigos versos impactantes não me sensibilizem mais. Acho que cresci nos últimos trinta e sete anos! E claro, o mundo mudou (apesar da sacanagem capitalista ser ainda pior ). Mas a capacidade de criar não se exauriu, depois da pequena órfã abandonada encontrada pela freira no leito do rio, centenas de outros personagens surgiram na argamassa da imaginação e ganharam vida na ponta da esferográfica, no clec clec da máquina de escrever e na facilidade do teclado. Putas, santas, meninos de rua, gays, galãs de olhos verdes, mulheres jovens, maduras, idosas, heróis e vilões, convivem no limiar de valores tão paradoxais quanto próximos.

Anita e Antero frequentemente invadem meus sonhos, ou pesadelos ? A saga que se passa no sertão de Minas ainda não foi agraciada com um “The End’.Tuca e Bira me são muito queridos, “Santinha” que chorou uma única vez, lágrimas de sangue ao ver o filho bandido morto, as loucas , Telma, Estela, Mary e Clara...estes e outros , aguardam no nitrogênio.

O que me assusta, porém, são meus personagens de carne e osso. É essa gente que passa por mim e que facilmente transmuto. Que caracterizo, que atribuo qualidades e defeitos a revelia, que rotulo. Além de perigoso, é perverso. Preconizo falas que não foram ditas, antecipo atitudes, visualizo gestos, transformo vermes em seres maravilhosos e com alguns cliques os faço vermes novamente. Atribuo beleza à almas vazias, esvazio a nobreza de alguns onde falta empatia. Em segundos, príncipes viram sapos, e vice- versa. Invento dignidade para hipócritas que me são queridos, visto com um figurino dourado corpos esquálidos e disformes. Ensurdeço propositalmente, para que eu mesma seja a dona da voz que quero ouvir. Faço reis, vassalos, escravos, santos, vampiros, concubinas e meretrizes.

Sei, no entanto, que isso nada tem a ver com um dom especial, já que todos nós criamos os personagens que queremos, aqueles que atendam às nossas necessidades imediatas, aqueles que podem nos proporcionar algum tipo de bem estar, seja para satisfazer a vaidade de uma auto-estima em queda-livre que deseja o outro como acessório e alegoria , seja para usufruir dos serviços prestados , seja para preencher lacunas.

Somos todos criadores e criaturas de alguém. Por isso, talvez, com esse poder “divino” atribuído a nós, por nós mesmos, assassinamos os “personagens-pessoas” que não nos servem mais. Com um tiro a queima roupa, com requintes de tortura e crueldade, com desdém ou um suicídio induzido, apertamos a tecla “Del”.

 Não nos importa a dor e a agonia que provocamos, esquecemos que nossa fantasia é preenchida com seres portadores de alma e CPF. Na página em branco seguinte,iniciamos outras montagens com novos personagens , que um dia,mataremos também. Esquecemos porém, que nosso poder divinal, não nos protege e não impede de sermos assassinados por um outro deus igualmente criativo.

 Na História, não existem “personagens”, não existem ídolos, ícones do bem ou do mal, no caminho rochoso que trilhamos cotidianamente, permanece eternamente presente, mesmo que na memória, mesmo que em lembranças amareladas e distantes, gente de verdade, pessoas imperfeitas e distintas a quem dispensamos e das quais recebemos, indulgência, respeito, condescendência, confiança e amor. E é só por isso que a vida vale a pena.

 

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fabi · 5 vistos · 0 comentários
Mar252012

DO BAÚ II

Meu Anjo

 

Faço poesia interativa

Olhando através dos seus olhos

Redondas telinhas castanhas

Espelho , luzindo vida


Aprendo com suas perguntas

Navego no seu pequeno saber

Me entorpeço com seu toque

Emudeço diante de tantos  porquês

 

Já foi minha semente

Um pedaço do meu ser

Hoje cresce independente

E sou eu quem precisa de você

 

Não foi à toa que dei-lhe nome de anjo

Reconhece meus momentos de pesar

Quando me vê taciturna pelos cantos

Pede pros meus olhos pararem de suar

 

Me oferece seu colo magrinho

Desenhos, presentes que emocionam

Coloca a letra  F  num coraçãozinho

E escreve : “mamãe eu amo você”


Fabi · 5 vistos · 0 comentários
Mar252012

DO BAÚ I


 

Meu Rei

 

Ao mesmo tempo em que o buço escurece

A voz se altera num repente

Tem horas que clama independência

Noutras é criança indolente

Fantasia ser um super herói

E olha sorrateiro sob as saias das meninas

O corpo cresce rapidamente

Os pêlos começam a aparecer

Há um universo pujante

que não consigo alcançar

Admiro, me comovo, me assusto

Não posso impedir o tempo de correr

Ainda ontem era meu bebê

Um presente de Deus para me completar

Meu desespero eram febres  e cólicas

Seu consolo , um seio farto

Minha felicidade, um rostinho sorridente

Sua alegria, um colo de ninar

Coisas tão fáceis de entender...

Tão simples de viver....

Hoje,tenho um  homem a caminho

E temo pelo mundo que ele vai encontrar

Não posso mantê-lo na segurança do ninho

Mas vou estar por perto

Sempre que de mim precisar.

 

 





Fabi · 6 vistos · 0 comentários
Mar072012

DEMODÉ

Eu juro que queria ser normal, atual, me empolgar com as novidades, saber o nome de um perfume badalado , qual é a moda do verão, fazer musculação, body jump e spinning, ter a bunda empinadinha, mechas californianas no mega hair , o nome do gostoso do big brother, quem é a popozuda da vez, e torcer pela mocinha da novela.


Eu juro que queria ler Caras no salão, enquanto faço as unhas e as pinto com um “Vermelho Ivete”. Azul, jamais.


Eu juro que não gostaria de surtar , de ver um “filme” nas situações mais diversas, em versar nas adversas, com as desgraças alheias ( e minhas )...


Preferia  estar nas  redes sociais, expondo minha felicidade em trezentas fotos por dia... Ignorando por completo a noção de “privacidade” ... Ficaria horas conversando “on line”, viveria uma paixão virtual, teria um milhão de seguidores, amaria a todos ,chamá-los-ia de “amigos”.


Eu juro. Mas não consigo.


Eu juro que se não fosse minha mente inquieta , demente e ocupada, enviaria fotos, recados subliminares , piadas de gosto duvidoso, musicas românticas, clichês de impacto, trechos de poemas que nunca li, para alguém “curtir” ou “comentar”.


Eu juro, mas não sei como.


Eu juro que deveria me preocupar mais com celulite, que com ideais, mais com coisas que com pessoas, mais com meu umbigo que com os problemas sociais, mais com o invólucro , que com os princípios...


Eu juro.


Eu juro que gostaria de não ser assim, tão complicada e arcaica. De só ter meia dúzia de amigos , gostar de foto amarelada, colada em álbuns, com data e comentários em esferográfica borrada. Ter intimidade com bem poucos. Pensar o meu próprio pensamento, sentir o meu próprio sentimento, me permitir ficar puta, melancólica, descrente, me permitir ser preguiçosa e ter tantos defeitos...mesmo sem nunca ter entendido direito o que é “defeito”, exceto aqueles que dão em eletrodomésticos, aliás, meu liquidificador tá com defeito, vou comprar outro. Mas quando o “defeito” é em gente, dá pra comprar outro ? Defeito de gente é o quê ? Coisa de mecânica, engrenagem, eletrônica ... ou é coisa de caráter? Essa coisa de ser hipócrita e sacana que não tem conserto nunca... e que mesmo o ser “sacana e hipócrita” permite tantas leituras diferentes...


Eu juro que não gostaria de fazer questão de um amor real, amor de gente grande, desses que não tem frase feita, pose perfeita , promessa impagável, verdade escamoteada... Amor que acorda do lado, tem mau hálito matinal, dá risada, fica mal humorado, dorme pelado , dá abraço apertado, beijo molhado ,diz palavrão , não tem subterfúgios nem encosto de alma penada. 

Amor com olho de cristal.   


Eu juro que gostaria de ver programa de televisão e acreditar em tantas verdades contraditórias.


Juro, juro e juro...


Eu juro que gostaria de ser mais “in” que  “out”, ter mais estrangeirismo no meu vocabulário tupiniquim , nunca ter ouvido falar em imperialismo, achar todo brasileiro uma bosta, confundir cultura com academicismo, negar a História , ignorar a construção de um país....


Eu juro que deveria confiar mais no parâmetro do outro, que no meu próprio, mas são tantos os outros, que não sei em quem confiar... por isso talvez, ainda confie em mim mesma ...


Eu juro que deveria saber calar, e jamais preferir...


Bossa Nova a  Rock in Roll

Abraço a e-mail

Mestre a coach

Jorge Amado a Sidney Sheldon

Acarajé a hambúrguer

Mãe Menininha do Gantois a Deepak Chopra

Paulo Freire a Peter Drucker

Almodóvar a Spielberg

O afeto ao discurso

Chico Buarque a Frank Sinatra

Praia a shopping

Jacarta a Paris

O verso à prosa

Poesia a rosa

Sonho a realidade

O delírio ao Prozac

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fabi · 14 vistos · 0 comentários
Fev262012

ALIENAÇÃO


Tantos olhares envoltos em névoa,

corações embebidos no ópio,

peles alvas salvaguardadas,

e nossos umbigos enaltecidos.

 

Se tantos correm perigo,

ainda resta o sistema para culpar.

As mãos que se dizem atadas,

são as mesmas que fazem o nó.

 

Há um rio vertendo sangue,

mas é bastante longe, para que cause dó,

é mais fácil virar a página,

e não manchar as letras,

com uma lágrima só.

 

Outras manchetes também chocam

impossível desviar o olhar,

impõem-se na nossa frente,

são letras grifadas com gente...

 

...uma criança na calçada

tem um homem morrendo de fome,

cem meninos com mãos armadas,

jovens putas pelas esquinas...

 

Estatísticas,sem sobrenome,

vítimas de uma história antiga,

( que ainda  bolina a  memória ).

São os que perderam  a briga,

sem nunca terem estado na luta.

 

O bolo inchou como se previa,

tem quem arrote, para caber mais,

mas o gado que se avoluma

disputa os restos,

no pasto, dos nossos currais.

 

 

 


Fabi · 15 vistos · 0 comentários
Fev262012

ASSOMBRO


 às vezes

o caminho é assim

tortuoso, sinuoso, espinhento

tem ribanceiras e ciladas

inimigos disfarçados

uma estrada, no vazio

 

vai-se juntando pedaços

trocando bandagens

na alma

e torcendo para noite

nunca mais amanhecer

 

é  como um machucado que arde

um corte sangrento

uma ferida que insiste

em jamais cicatrizar

 

a paisagem é cinzenta

há um vento calado

folhas inertes

um sol eclipsado

a lua  envergonhada

sem mar

para ela refletir

 

esse inverno resoluto

esse féretro , esse luto

essa resignação contumaz

esse silêncio mordaz

é a paz ?

ou não se ter aonde ir ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fabi · 17 vistos · 0 comentários
Fev032012

DISCURSO



Deixa eu dizer que te amo

Deixa eu dizer que te quero

Deixa eu dizer : te espero

 

Deixa eu dizer com palavras tortas

Palavras mortas

Palavras amorfas

Palavras malditas

 

Deixa eu dizer com a voz embargada

A voz tragada

A voz engasgada

A voz exaurida

 

Deixa eu dizer com a boca calada

A boca  fechada

A boca cerrada

A boca  aturdida

 

Deixa eu dizer com a língua suada

A língua cansada

A língua cálida

A língua aflita

 

Deixa eu dizer ....

 

Com a voz  despudorada

Com a boca faminta

Com a língua na tua

Com a palavra já dita

 

...tudo que já disse...

...e o que ainda falta dizer

 

 

 

 


Fabi · 28 vistos · 0 comentários
Fev022012

TATEANDO


Sempre que me despeço de mim

e ergo os braços num adeus débil

sinto um aperto de saudade

um medo inconsistente

e vergonha da covardia


Em meio a passos falseados

prossigo , hesitante, prossigo

Insisto em olhar a paisagem

por sobre os ombros... 

Desenho em nanquim

um retrato inconcluso

uma nova tiragem

sob o título :

“Futuro”


Desconfio dos meus próprios traços

Apago linhas recém delineadas

para reescrevê-las em seguida

(As incertezas ilustram

essa  obra em construção )


Faço  retas curvilíneas

Disfarço os borrões 

que não sucumbiram ao látex

Dou-lhes novo significado

mas ainda é rascunho


Resisto à aquarela 

que se exibe insinuante

O vermelho me assusta

( e me excita )

Ainda falta coragem 



Teimosa e temerosa

lanço mão do grafite

e rabisco coisas

sem definição


Incorporo ao atlas da vida

torpes representações

(mapas sem nenhuma significação)


Acrescento páginas,

para virá-las, 

em seguida
































Fabi · 23 vistos · 0 comentários
Dez312011

TRAJETÓRIA


Viver é correr risco

Não temer o calor do sol

A freada brusca

As artimanhas do destino

 

Viver, é sentir o gosto amargo da derrota

E levantar para uma nova conquista

Provar o doce fruto da paixão

Tantas quantas vezes ela surgir,

Enlouquecer, se ferir... 

Sofrer, e não aprender a lição

 

Viver, é amar intensamente

Beijar na boca , andar de mãos dadas

Não esquecer de  dizer : eu te amo

Mas dizê-lo, com o coração

Fazer amor no meio da escada

Brigar pelas causas justas

Admirar os contornos da lua

Escalar uma montanha

Entrar nu nas águas frias do rio

Andar de bicicleta na chuva

Driblar as ondas do mar

Correr com crianças na areia

Chorar no final do filme

Cantar um refrão  de uma música desconhecida

Fazer novos amigos

Abraçar os antigos

Tomar chope gelado na beira da praia

Um copo de vinho numa noite estrelada

Remar, e nunca esquecer...

Das dádivas que nos foram dadas...

Das flores da nossa estrada

Apesar dos percalços deste caminho

 

Viver, é ter olhos no horizonte,

pés  fincados  no chão,

gelatina no coração,

poesia ,inspiração

E um dia  dizer....

...simplesmente :

Eu vivi !!!!!!

 

 


Fabi · 26 vistos · 0 comentários

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