“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Fabi · 58 vistos · 0 comentários
Out032010

BANQUISA


        Amanhã vou sair pra votar, votar pra presidente. Direito que só adquiri aos 25 anos. Seis anos depois do movimento “Diretas já” podíamos finalmente ir às urnas para escolher o mandatário da nação. 
        Passados Vinte e um anos, muita coisa mudou. O mundo mudou,o Brasil mudou, eu mudei. Diante de tantas mudanças o saudosismo é quase inevitável. Embora não tivéssemos celular, internet e tv a cabo, a vida parecia mais “macia”, mais leve, mais verdadeira. 
        A 
década de oitenta é considerada a década perdida da economia. A inflação era monstruosa, nossas fábricas eram obsoletas, tivemos planos econômicos fracassados, quem tem mais de quarenta manuseou cruzeiros, cruzados e cruzados novos. Faltou feijão no mercado, a carne foi vendida com ágio e a cerveja do meu casamento foi “contrabandeada” de um mercado da Baixada que oferecia o produto em maior quantidade mediante uma “caixinha”.
      Apesar de tudo isso , sinto saudade. Saudade dos sonhos, da  paixão, da ideologia da juventude, dos versos do Renato Russo e do Cazuza, da Guerra Fria que não dava onipotência a ninguém, das canções de Pablo Milanés , da autenticidade e riqueza da cultura popular, dos caras pintadas, saudade de um passado que pressupunha um futuro melhor, saudade da poesia. 
       Mas o
futuro” chegou, chegou com equipamentos que superam em muito a ousadia  dos filmes futuristas de décadas passadas, as prateleiras dos mercados estão sempre abastecidas com os mais diversos produtos, a inflação não nos assusta de tão pequena, passamos 24 horas conectados com o mundo, temos centenas, milhares de “amigos”, e, no entanto estamos mais sós, mais infelizes, antidepressivos vendem mais que analgésicos, a dor, mudou de lugar. Nosso emagrecimento moral foi sustentado pelo individualismo e pelo narcisismo. O “outro” é só alguém que serve para alimentar nosso ego, alguém de quem possamos tirar alguma coisa, que nos sirva a algum propósito. As pessoas se tornaram descartáveis. Respeito e solidariedade saíram de moda. A  nova ideologia é o consumo. A pasteurização da informação atrofiou a criatividade e castrou a originalidade intelectual.    
     
Confesso que embruteci, perdi a capacidade de me indignar, de acreditar. Diante da covardia e da falta de caráter me resigno , diante do novo , desconfio.
    
        
Amanhã vou sair para apertar um botão, minha esperança foi depositada numa urna de lona , com um X  num pedaço de papel, há muito tempo atrás...
   


Fabi · 88 vistos · 0 comentários