Tantos olhares envoltos em névoa,
corações embebidos no ópio,
peles alvas salvaguardadas,
e nossos umbigos enaltecidos.
Se tantos correm perigo,
ainda resta o sistema para culpar.
As mãos que se dizem atadas,
são as mesmas que fazem o nó.
Há um rio vertendo sangue,
mas é bastante longe, para que cause dó,
é mais fácil virar a página,
e não manchar as letras,
com uma lágrima só.
Outras manchetes também chocam
impossível desviar o olhar,
impõem-se na nossa frente,
são letras grifadas com gente...
...uma criança na calçada
tem um homem morrendo de fome,
cem meninos com mãos armadas,
jovens putas pelas esquinas...
Estatísticas,sem sobrenome,
vítimas de uma história antiga,
( que ainda bolina a memória ).
São os que perderam a briga,
sem nunca terem estado na luta.
O bolo inchou como se previa,
tem quem arrote, para caber mais,
mas o gado que se avoluma
disputa os restos,
no pasto, dos nossos currais.
Sindicação