“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Fev262012

ALIENAÇÃO


Tantos olhares envoltos em névoa,

corações embebidos no ópio,

peles alvas salvaguardadas,

e nossos umbigos enaltecidos.

 

Se tantos correm perigo,

ainda resta o sistema para culpar.

As mãos que se dizem atadas,

são as mesmas que fazem o nó.

 

Há um rio vertendo sangue,

mas é bastante longe, para que cause dó,

é mais fácil virar a página,

e não manchar as letras,

com uma lágrima só.

 

Outras manchetes também chocam

impossível desviar o olhar,

impõem-se na nossa frente,

são letras grifadas com gente...

 

...uma criança na calçada

tem um homem morrendo de fome,

cem meninos com mãos armadas,

jovens putas pelas esquinas...

 

Estatísticas,sem sobrenome,

vítimas de uma história antiga,

( que ainda  bolina a  memória ).

São os que perderam  a briga,

sem nunca terem estado na luta.

 

O bolo inchou como se previa,

tem quem arrote, para caber mais,

mas o gado que se avoluma

disputa os restos,

no pasto, dos nossos currais.

 

 

 


Fabi · 15 vistos · 0 comentários
Fev262012

ASSOMBRO


 às vezes

o caminho é assim

tortuoso, sinuoso, espinhento

tem ribanceiras e ciladas

inimigos disfarçados

uma estrada, no vazio

 

vai-se juntando pedaços

trocando bandagens

na alma

e torcendo para noite

nunca mais amanhecer

 

é  como um machucado que arde

um corte sangrento

uma ferida que insiste

em jamais cicatrizar

 

a paisagem é cinzenta

há um vento calado

folhas inertes

um sol eclipsado

a lua  envergonhada

sem mar

para ela refletir

 

esse inverno resoluto

esse féretro , esse luto

essa resignação contumaz

esse silêncio mordaz

é a paz ?

ou não se ter aonde ir ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fabi · 17 vistos · 0 comentários
Fev032012

DISCURSO



Deixa eu dizer que te amo

Deixa eu dizer que te quero

Deixa eu dizer : te espero

 

Deixa eu dizer com palavras tortas

Palavras mortas

Palavras amorfas

Palavras malditas

 

Deixa eu dizer com a voz embargada

A voz tragada

A voz engasgada

A voz exaurida

 

Deixa eu dizer com a boca calada

A boca  fechada

A boca cerrada

A boca  aturdida

 

Deixa eu dizer com a língua suada

A língua cansada

A língua cálida

A língua aflita

 

Deixa eu dizer ....

 

Com a voz  despudorada

Com a boca faminta

Com a língua na tua

Com a palavra já dita

 

...tudo que já disse...

...e o que ainda falta dizer

 

 

 

 


Fabi · 28 vistos · 0 comentários
Fev022012

TATEANDO


Sempre que me despeço de mim

e ergo os braços num adeus débil

sinto um aperto de saudade

um medo inconsistente

e vergonha da covardia


Em meio a passos falseados

prossigo , hesitante, prossigo

Insisto em olhar a paisagem

por sobre os ombros... 

Desenho em nanquim

um retrato inconcluso

uma nova tiragem

sob o título :

“Futuro”


Desconfio dos meus próprios traços

Apago linhas recém delineadas

para reescrevê-las em seguida

(As incertezas ilustram

essa  obra em construção )


Faço  retas curvilíneas

Disfarço os borrões 

que não sucumbiram ao látex

Dou-lhes novo significado

mas ainda é rascunho


Resisto à aquarela 

que se exibe insinuante

O vermelho me assusta

( e me excita )

Ainda falta coragem 



Teimosa e temerosa

lanço mão do grafite

e rabisco coisas

sem definição


Incorporo ao atlas da vida

torpes representações

(mapas sem nenhuma significação)


Acrescento páginas,

para virá-las, 

em seguida
































Fabi · 23 vistos · 0 comentários