“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Visualização dos artigos postados o: 27/01/2009

Jan272009

O ÚLTIMO DIA

   

           

           Hoje, Bezerra caminhava a passos mais lentos , o posto já estaria fechado  para o público, aguardando a reinauguração na semana seguinte. Viria o Prefeito, o Secretário de Saúde e de certo sairia nos jornais. Propaganda boa para campanha política, não passaria despercebido o evento corriqueiro, que para ele era um marco na vida.


            Finalmente, o velho posto de saúde do Largo do Machado foi reformado. Mudaram tudo. Depois de passar 30 de seus anos como funcionário público , distribuindo números que ele mesmo fazia com pedaços de papelão e esferográfica , seria substituído por uma máquina simples, onde os próprios pacientes retirariam suas senhas , a fim de aguardar a vez de serem atendidos  por moças jovens bem uniformizadas  de uma empresa terceirizada .Elas preencheriam as fichas nos computadores e depois as encaminhariam aos doutores especializados. Tudo tão diferente...      
    
          
Ninguém faria o trabalho como Glorinha, que estava se aposentando junto com ele, depois de prestar  serviço com alegria e humanidade por tantos anos. Glorinha ficou com o cargo de preencher as fichas da recepção por que tinha uma caligrafia perfeita, as letras maiúsculas dos nomes dos pacientes davam-lhes até mais importância. Fazia inúmeras voltinhas na confecção de um H, o L era majestoso e ocupava uma área grande na linha. Uma vez, recebeu dela um bilhete simples, cujo teor mal se lembrava, mas o B de seu nome  minuciosamente desenhado, jamais lhe saíra da memória
   

        Glorinha costumava dar sempre um jeitinho de passar à frente aqueles que ela pré diagnosticava como casos mais sérios. Por isso era tão amada , ganhava desde presentes bons como água de colônia até saquinhos de bala de coco , que ela recebia sempre com o mesmo  entusiasmo , com o mesmo sorriso emoldurado pelo batom , que retocava a cada meia hora. Nunca perdera a vaidade. Durante todos esses anos , mesmo grávida dos gêmeos o que a deixou imensa, mesmo quando perdeu o primogênito num acidente de trem e até na  viuvez prematura, Glorinha jamais perdera o viço, havia sempre um brilho de otimismo e um gosto único pela vida retratados nos seus olhos redondos e enormes que ela contornava com sombra azul.  Ganhara mais quilos com o passar do tempo, mas não abandonou as calças justíssimas que combinavam com blusas de estampas alegres. O cabelo sempre usou bem curtinho, ultimamente, estava vermelho. Brincos grandes faziam conjunto com o colar, e ainda tinha  aquele  sorriso. Durante trinta anos Bezerra observara o sorriso e o timbre de voz alto de Glorinha que distraía os pacientes contando casos da sua vida. Nem  mesmo Jurema no auge da juventude tivera tanta graça. 

         Jurema era uma mulata graúda, de quadris largos, que prestava serviços a Bezerra , todo  dia de pagamento era sagrado. Subia a escadaria do cortiço da rua Alice, feliz e ansioso pelo gozo merecido e único do mês. Depois dos quatro filhos, Jurema perdeu muito da sua beleza jovem. A barriga caiu sobre o púbis, os peitos encontraram a linha da cintura larga e a longa cabeleira negra de henê, deu lugar  à fios de nylon cacheados e mal cheirosos. Mas Bezerra não substituiu seus serviços pelos de mulheres mais jovens por ter uma espécie de fidelidade subserviente  à Jurema , que já nem cobrava preço fixo, aceitava de bom grado umas bugigangas da Rua da Alfândega , que ele comprava antes de visitá-la.
 
          Desde que entrou para o posto,  Bezerra visitava Jurema em uma constância quase religiosa . Da mesma forma cumpria, diariamente, a promessa que fez à São Francisco de Assis , que lhe ajudou a passar no concurso. Prometera alimentar animais e escolhera os pombos do Largo do Machado , pela facilidade , já que cruzava a praça para chegar ao seu destino, e pelo baixo custo do alimento, o milho cabia bem no seu orçamento parco. O inconveniente era os excrementos que volta e meia uma ave mal agradecida lhe mandava das alturas. Marlene é que reclamava, dizia que era preciso deixar as camisas de molho para tirar as manchas de bosta de pombo. Mas Marlene reclamava de tudo. Sempre foi assim, e ele acreditou durante muitos anos que era por causa da frigidez. Marlene  não gozava, nem no começo do casamento, quando ele ainda acreditava que ela fazia parte do seu destino e devia amá-la de alguma forma. Seus pais foram  amigos e arquitetaram o encontro dos dois. O pai de Marlene morreu pouco antes deles se casarem, por complicações causadas por uma cirrose, deixou-lhes o apartamento do Bairro de Fátima, onde moravam. Ela não era má pessoa, reclamava de tudo, mas cuidava bem da sua roupa, e sempre deixava o jantar enrolado num pano de prato encardido, que baratinhas miúdas de pernas compridas insistiam em fazer de albergue , era preciso desfazer o nó com cuidado para evitar que alguma mais ousada, viesse a fazer parte da sua ceia noturna. Algumas coisas Marlene fazia bem, frango ensopado com batata, carne moída com abobrinha, guisado  de chuchu com repolho... Mas o quiabo que ela cozinhava misturado com lingüiça, o afrontava , não descia, e Marlene reclamava do desperdício e xingava por horas a fio, ao encontrar o prato intocado sobre a pia. Mas o quiabo não descia, lhe parecia um réptil babento de mil  olhos, a debochar da sua vida débil. Era preferível ouví-la reclamar às terças feiras, dia do quiabo, a enfrentar o monstro verde.        

       
A condescendência apoiada na sua teoria, mudou de fundamentação, depois de uma  quinta feira em que voltou para buscar o guarda- chuva por conta de uns pingos . Ouviu uns gemidos abafados que vinham do porão do prédio. Seguindo-os, avistou por uma rachadura entre a moldura da porta e a parede , Marlene com o vestido levantado, com seu Teobaldo, um senhor meio surdo que era porteiro do prédio pra lá de quinze anos, a fazendo visitar estrelas. Ela grunhia pressionando a cabeça dele entre seus seios, enquanto ele fazia um malabarismo esquisito para compensar a pouca estatura. Bezerra viu que Marlene gozava e gostava , e gritava de prazer ignorando por completo o terrível odor da lixeira tão próxima. A cena não lhe despertou nenhuma forma de ciúme, ficou com pena de seu Teobaldo quase sufocado pelos peitos imensos da Marlene. E dela sentiu uma espécie de nojo  , quando a viu voltar a calcinha de elástico frouxo pro lugar e tentar limpar o esperma ralo do porteiro que lhe escorria entre as  coxas com o vestido de jérsei que não tinha nenhum poder de absorção. Também não se sentiu traído, ela tinha seu Teobaldo e ele sempre tivera Jurema, que ao menos na juventude , quando ainda gozava, o fazia de  forma mais elegante.

          Passou pelos pombos ignorando-os, a aposentadoria chegara, estava quite com São Francisco. Cruzou a praça com o guarda - chuva na mão esquerda, que desde aquela quinta feira fez questão de nunca mais esquecer , e na direita o saquinho pardo com milho, que se negou a distribuir aos pombos, talvez fosse uma vingança secreta contra as tantas cagadas que levou na cabeça.


         O clima era de festa na repartição. Enquanto ele retirava alguns pertences da gaveta da escrivaninha de aço, Glorinha comemorava na sala em frente com alguns  funcionários. De soslaio observava a alegria dos colegas , sabia que podia e devia participar, mas sentia uma inquietação indescritível. Glorinha, percebendo a timidez do amigo se aproximou com um pedaço de bolo e um copo de guaraná  . Bezerra ao vê-la chegar tão perto, sentiu uma tormenta invadir-lhe o peito, como se seu órgão maior quisesse saltar. Pensou que morreria quando ela pousou sobre a mesa o prato e o copo para dar-lhe um apertado abraço seguido de um beijo no rosto. 

         O sangue percorreu todas as artérias e veias de Bezerra, simultaneamente, seu rosto ficou quente, como a encosta de um vulcão incandescente, a boca encharcada, não balbuciou palavra . Ficou estático , vendo Glorinha fitar-lhe os olhos demoradamente depois do beijo , e insistir que não faltasse à continuação da festa que seria à noite numa gafieira da Lapa, onde ela costumava dançar .
    

          Bezerra saiu do posto pela última vez, os olhos brilhavam pela primeira. Numa sacola plástica carregava frangalhos de uma existência, no peito, a certeza que estava vivo, e a gafieira da Lapa  era a chama de uma esperança que nunca tivera antes.
        


Fabi · 97 vistos · 1 comentário