“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Visualização dos artigos postados o: 17/05/2009

Maio172009

EPITÁFIO II

Morreu o Zé
O pobre Zé, morreu, sabe Deus de quê.
Provavelmente dessas coisas que matam
os pobres todo dia.
Os incontáveis Zés
da nossa democracia.
O Zé morreu de noite
nos braços da sua Maria
Os filhos do Zé não choraram a morte do pai

Temeram o defunto

com o mesmo temor que já tinham dele em vida
O Zé e sua trajetória estúpida
Sua  existência de nada
Sua alma vazia
Foi-se o Zé , e nos preocupamos,
Com o futuro de Maria
Por que ?
ele era tão pouco ........( ?)
Era só o Zé , que explorava Maria
Não tinha trabalho
Fazia biscate,
Bebia
O Zé cambaleava
Desmaiava no meio fio
Bêbado......
Batia nos filhos
Trepava com Maria
Gozava.................
Fazia mais filhos
Mais filhos de Zé e Maria
Outros  Zés, outras Marias
O Zé era um Zé de merda
Sequer foi notícia de jornal
Ninguém tinha dinheiro pro funeral
A morte do Zé virou despesa
O enterro, foi de vaquinha
De porta em porta
De real em real
Cada vizinho dava o que tinha
O Zé que mal conheci
Me custou cinqüenta reais.
O Zé valia tão pouco....
Era só um Zé a mais. 

Fabi · 40 vistos · 0 comentários
Maio172009

EPITÁFIO

Aqui jazz uma família,
Cansada de lutar:
Por causas nobres,
Por causas pobres
Por causa dos pobres
Por causas dos nobres 
 
Aqui jazz uma família
Que não foi à escola
Foi barrada no hospital
Não entrou no supermercado. 

Morreu esperando :
A TV colorida
A casa de tijolos
A carne de primeira
O pão fresco
O prêmio da loteria
A esmola

A mão estendida

 
Morreu esperando a vida 

Aqui jazz uma família
Que jamais viu suas contas vencerem
Por não ter contas à ajustar
Jamais se rebelou
Por não saber se rebelar
Não reivindicou seus direitos
Por não saber a quem cobrar
Não sofreu de desesperança
Porque não teve o que esperar
Não teve seus sonhos destruídos 
Porque não soube sonhar
Não tirou identidade
Por não ter O QUÊ  identificar 

Aqui jazz uma família
Que não esperou a morte morrida
Morreu fragmentada de morte matada 
   
Pela fome,
Pelo desemprego
Pelo descaso
Pela falta de solidariedade
Pela falta de dignidade
Alheia 

Há quem diga, que morreu unida 
De morte morrida 
De dengue,
De cólera
De tétano,
De mal não diagnosticado
De erro diagnosticado
De atropelamento
De bala perdida
 
Quem sabe faltou : 
S
ocorro
Seringa
Sutura
Seriedade 

Aqui jazz uma família
Que morreu no nosso calcanhar
E continua morrendo
Diariamente em todo lugar
Sai no rádio, televisão e jornal
Atrapalha o trânsito e nosso café matinal
São meninos, nordestinos, baleiros
Bandidos ou flagelados
São brasileiros. 

Fabi · 50 vistos · 2 comentários