“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Out032010

03:28:07
BANQUISA


        Amanhã vou sair pra votar, votar pra presidente. Direito que só adquiri aos 25 anos. Seis anos depois do movimento “Diretas já” podíamos finalmente ir às urnas para escolher o mandatário da nação. 
        Passados Vinte e um anos, muita coisa mudou. O mundo mudou,o Brasil mudou, eu mudei. Diante de tantas mudanças o saudosismo é quase inevitável. Embora não tivéssemos celular, internet e tv a cabo, a vida parecia mais “macia”, mais leve, mais verdadeira. 
        A 
década de oitenta é considerada a década perdida da economia. A inflação era monstruosa, nossas fábricas eram obsoletas, tivemos planos econômicos fracassados, quem tem mais de quarenta manuseou cruzeiros, cruzados e cruzados novos. Faltou feijão no mercado, a carne foi vendida com ágio e a cerveja do meu casamento foi “contrabandeada” de um mercado da Baixada que oferecia o produto em maior quantidade mediante uma “caixinha”.
      Apesar de tudo isso , sinto saudade. Saudade dos sonhos, da  paixão, da ideologia da juventude, dos versos do Renato Russo e do Cazuza, da Guerra Fria que não dava onipotência a ninguém, das canções de Pablo Milanés , da autenticidade e riqueza da cultura popular, dos caras pintadas, saudade de um passado que pressupunha um futuro melhor, saudade da poesia. 
       Mas o
futuro” chegou, chegou com equipamentos que superam em muito a ousadia  dos filmes futuristas de décadas passadas, as prateleiras dos mercados estão sempre abastecidas com os mais diversos produtos, a inflação não nos assusta de tão pequena, passamos 24 horas conectados com o mundo, temos centenas, milhares de “amigos”, e, no entanto estamos mais sós, mais infelizes, antidepressivos vendem mais que analgésicos, a dor, mudou de lugar. Nosso emagrecimento moral foi sustentado pelo individualismo e pelo narcisismo. O “outro” é só alguém que serve para alimentar nosso ego, alguém de quem possamos tirar alguma coisa, que nos sirva a algum propósito. As pessoas se tornaram descartáveis. Respeito e solidariedade saíram de moda. A  nova ideologia é o consumo. A pasteurização da informação atrofiou a criatividade e castrou a originalidade intelectual.    
     
Confesso que embruteci, perdi a capacidade de me indignar, de acreditar. Diante da covardia e da falta de caráter me resigno , diante do novo , desconfio.
    
        
Amanhã vou sair para apertar um botão, minha esperança foi depositada numa urna de lona , com um X  num pedaço de papel, há muito tempo atrás...
   


Fabi · 108 vistos · 0 comentários

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