“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Dez202010

17:19:20
A Calcinha do Ano Novo

Não sei em que momento da vida fiquei “tão esotérica assim”, pelo que me lembro ainda nem tinha entrado no ginásio quando já lia o Almanaque do Pensamento na casa da minha avó e sabia de antemão tudo que me aguardava no ano vindouro. Naquela época, infelizmente, não sabia como me resguardar de possíveis infortúnios e nem como dá uma mãozinha  pro destino. Hoje , mais erudita , com pleno domínio sobre o tarot, I ching, runas, numerologia ,  horóscopo e tudo mais que os sites possam me oferecer, não apenas sei o que o futuro me reserva, embora não haja concordância em nenhuma das previsões, como também conheço as mandingas para um ano perfeito. 
          Importantíssimo por exemplo é a cor da roupa, principalmente da calcinha, não faltam durante essa época, conselhos de grandes gurus dando sugestões de como garantir um ano próspero, saudável e repleto de paixão. Embora, obviamente, não rejeite nenhuma informação, tenho minhas próprias convicções baseadas em experiências anteriores.

         Descartei  completamente roupa vermelha depois do reveillon de 82, não entrei pra universidade que eu queria, sofri um acidente de carro, o Brasil perdeu a copa e continuei virgem. Voltei pro branco com acessórios amarelos e como sempre detestei rosa, não investia na calcinha para encontrar um grande amor, até porque aos dezoito as coisas não eram tão difíceis.

         Durante o casamento, não tenho certeza, mas posso quase garantir que as calcinhas eram bege, com o sexo (bege) garantido , o amor subentendido ou pressuposto e a Unimed sempre em dia,  restava manter a paz , com um branco omo total e o dinheiro no amarelo . Com o tempo inconscientemente, talvez, passei a usar verde em tons variados nas passagens de ano. Esperança?

De 2002 para 2003, meu primeiro ano de mulher “separada”  usei um longuete verde musgo, fui comparada a um pepino japonês, e infelizmente não lembro da cor da calcinha. Mas abandonei o verde em definitivo. Pepino é sacanagem.

         No ano seguinte, baseada em pesquisas mais atuais e  profundas sobre o assunto, não me preocupei muito com a cor da roupa, usei um branco ( paz é sempre bom) um detalhe prateado e uma calcinha vermelha, rendada, sexy, quase fio dental...choveu bastante na minha horta, não colhi nenhum sapoti suculento, nenhum melão, cerejas ou morangos, na verdade foram muitos chuchus, repolhos e alfaces. Mas houve produtividade no latifúndio, isso  não posso negar.

Não satisfeita com a salada anterior, mas confiante que estava no bom caminho, dei uma caprichada na roupa para 2004 e repeti a calcinha carmim. Deu certo,vivi minha paixão impetuosa, meu amor impossível. Conheci meu príncipe, meu galã hollywoodiano, um misto de conto de fadas, fotonovela e romance Sabrina. Plenitude e vazio, amor e dor, paixão correspondida inviabilizada pelas circunstânciasda vida. Nem Janete Clair fez coisa parecida.

Em 2005 tinha que dar uma melhorada, já que tivera amor, paixão, sexo,mas muito sofrimento associado, precisava mudar alguma coisa, mas  a calcinha vermelha não podia faltar, de certa forma tava dando certo. Resolvi ser o mais básica possível e só investir nela, na calcinha. Custou uma grana, mas teve retorno, rolou até pedido de casamento, mas foi só o pedido e uma desistência imediata, concluí que não era amor e foi nisso que resolvi apostar quando me rendi ao rosa bebê numa calcinha de algodão para 2006. Um fiasco, foi a maior seca já enfrentada pelo meu semi-árido.

Depois tentei uma pink , num modelito brega, voltei ao vermelho,e não tenho percebido muita diferença entre um ano e outro. Receio apelar novamente para o  rosa e atrair só amor , o vermelho pode ser só sexo, e embora seja melhor “sexo sem amor” que “amor sem sexo”, que como já dizia o profeta ( ou foi o poeta? ) “é amizade”, e amizade tenho de sobra, só o sexo deixa a sensação de vazio, de vasilhame descartável, e definitivamente não tenho vocação para  cheeseburguer. Desejo, acredito e mereço mais, por isso, para 2011 estou na dúvida entre um fio dental  em patchwork ou investir só na roupa sem nada por baixo. Será que vai ventar ?

 


Fabi · 108 vistos · 0 comentários

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