A cidade triste, banhada em lágrimas de chuva, se despedia do ano. Das amarguras, dos dissabores, das ausências , das expectativas frustradas, dos encantamentos insossos, dos medos...Vestida de branco, sob rojões, uma nova esperança nascia , como antes, como sempre, embora efêmera, como as falsas estrelas estrondosas,estridentes, que insistiam em iluminar o céu negro e úmido.
Mas dois entre tantos, mais dois dos milhares também trôpegos, tolos, bêbados e solitários, ali espreitados pelo olhar ora condescendente, ora impiedoso do mar, trocaram sorrisos, abraçaram-se demoradamente e depois se beijaram de forma indireta bebendo no gargalo alheio a champanhe morna, um do outro, como forma de comemorar, como forma de expurgar , como forma de fecundar anseios , quiçá quimeras, construídas num lampejo , no primeiro segundo do ano que começava.
Deram-se as mãos como velhos conhecidos, resguardados, protegidos, pela respeitosa senhora Praia de Copacabana. Chutaram a água, correram feito meninos, sentaram na areia e observaram durante horas o horizonte camuflado pela noite. E assim abraçados e emocionados, como num pacto silencioso não disseram palavras, permaneciam juntos, porém distantes, relendo os passos das suas histórias tão distintas, na escuridão do mar.
Sequer eram belos, ele, meio calvo apesar da pouca idade, tinha a pele branquinha marcada por alguns sinais, olhos curiosos encobertos pelos óculos redondos davam-lhe um ar de intelectual, parecia um desses professores de história ou filosofia que gostam de discorrer sobre as mazelas da vida. Mas na verdade era músico, e dos bons. Ritmava com o violão os versos românticos que ele mesmo fazia. Era sensível tinha um gosto extraordinário pelas coisas simples, conseguia ver nas entrelinhas, nas minúcias da natureza e das pessoas o melhor das suas essências, compunha até na chuva, versava nos dias nublados e se emocionava com os meninos malabaristas espalhados nos sinais, era poeta.
Viera para o Brasil ainda criança, mas o sotaque das Antilhas ainda o perseguia, embora seus versos fossem em bom português. E era o Rio, a praia emoldurada por montanhas e prédios e a “carioquice” irreverente, seus maiores inspiradores. Davam cor às palavras e um ritmo doce à sua melodia.
Era poeta e apaixonado, tão apaixonado que não conseguia se render a uma só paixão, tinha um amor universal que se revelava em tudo que produzia, sempre com uma, beleza tão rara quanto especial. E assim prosseguia, viajante do tempo, parceiro da vida, sem questionamentos estéreis, sem conclusões banais, sem confusões pessoais, sem solidão.
Na noite de Reveillon, era só um menino, perdido dos seus sonhos, naufragado em champanhe , buscando algo que desconhecia, e acabou por encontrar em meio à chuva fria, uma alma passante , descrente, hesitante, diferente da sua e que nunca saberia dos meandros da sua existência.
Era ela uma pessoa comum, uma mulher como outras tantas, sem música, sem poesia, envolta em problemas, que permeiam nosso dia a dia. Devia ter uns quarenta, dois filhos ou mais, um metro e setenta e bronzeada demais. Olhos castanhos, olhar sem premissas, madura e saudosa de um tempo que não voltaria jamais, perdera a utopia, os sonhos, a fantasia e alguém que julgara , erroneamente como sempre, aquele que seria seu parceiro e amante.
Na noite de Reveillon era apenas mais uma, bebendo a revelia, sem pensar no amanhã, e acabou por tornar-se a preia de um delírio fascinante, uma bolha de champanhe que perdura, um fogo de artifício incandescente.
Mas antes que o sol despertasse para fazer emergir a realidade lacerante, extravasaram a emoção latejante que pulsava no peito e se estendia nas mãos suadas entrelaçadas e apertadas. Seus lábios se encontraram e desvendaram todos os mistérios e segredos que os interessava conhecer para viver o momento.
Amaram-se intensamente ali na boca da praia, sobre a areia encharcada de saliva salgada da língua insistente, sedutora e traiçoeira do mar . Esse espelho contundente da vida, trazendo ondas, assim como os dias, que partem, para nunca mais voltar.