Vira e mexe me pergunto , o que seria de mim, se não tivesse me tornado MÃE.
Se não fossem esses meninos , que de meninos quase nada mais têm, mas que meu olhar caprichoso, preguiçoso e condescendente me faz abstrair a barba , as pernas cabeludas ( malditas e lindas pernas cabeludas têm esses meus meninos !!!! ) e uma voz grave , que quase nunca me solicita, que não ouço mais chorar de fome , de medo de monstro do escuro, de dor de joelho ralado.
Menino crescido tem dessas coisas, cuida das próprias feridas, conta os segredos pros amigos, não chora nunca. Se chora, é escondido, não paga mico de contar pra gente que perdeu o medo do monstro, mas que às vezes quase se apavora,de tanto medo do mundo.
Mas menino crescido não pede colo, não pede nunca , mesmo quando a gente oferece os braços, num abraço comprido, num abraço que só as mães sabem a dimensão que tem.
O que seria de mim sem meus meninos?
Talvez estivesse mais magra, com a pele do seio mais rígida, a barriga mais definida e um bumbum turbinado. Talvez adotasse um poodle, que adornaria com laço de fita, o chamaria de filho, mesmo em público, tentando compensar o vazio.
Teria perdido a essência daquilo que nos vem de fábrica, que faz parte do feminino , mas foi deturpado pelo mercado. Que fez da mulher um produto,com rótulo, preço e prazo de validade. Que nos embrutece com modismos, criando personagens. Caricaturas de revistas que nada têm de autenticidade.
Mas eu tenho meus meninos pra me chamar de MÃE , que complementam minha existência, alterando a forma e o conteúdo, me dando manemolência no transcorrer dos dias e para encontrar a razão, de um dia eu ter nascido.
O que seria de mim se não fossem meus meninos...Já deram tanto trabalho , ainda dão e darão com certeza... mas nada que me faça lamentar, nada que me faça questionar, que melhor seria, se não os tivesse tido.
Esses meninos sequer são perfeitos , tem os dias de mau humor, dias de nota vermelha, de carimbo na caderneta , de deixar comida no prato, de detestar salada , principalmente do agrião, de largar os tênis na sala, deixar a luz acesa, de esquecer de ligar, de avisar que vão chegar tarde, às vezes , que nem vão chegar... são coisas de menino, que dá vontade de esganar... vontade que não sejam mais meninos e cuidem da própria vida...
Mas como vai ser a minha vida , sem os meus meninos ? Que de meninos quase nada mais têm, e que não demora, não tarda, sequer vou me espantar com a barba...
É quando a vontade de esganar passa e me apavoro, de medo do mundo... mas como não ligo de pagar mico, peço colo pros meus meninos e me perco entre seus braços longos e cabeludos, num abraço tão comprido, tão apertado ,desses que só as mães sabem, a importância que tem.