Ano findo, hora de computar perdas, de avaliar, de refletir, de planejar... hora da faxina nas gavetas, de se desfazer do que não serve mais, mas que por um apego infantil ou por falta de coragem nos mantém ligados ao que se pode chamar de lixo. Joguei fora muita coisa: camisetas, vestidos, sapatos, padrões, posturas, versos, mágoas, lembranças, pessoas... O Ano começou com as gavetas limpas e arrumadas, cheias de espaço onde já começo a organizar novas alegrias, grandes surpresas, emoções inesperadas, novas pessoas...
Em 2008 aprendi bastante ,subi o morro, e no meu contato com a miséria, descobri uma riqueza imensurável, me apaixonei, me emocionei, me encantei... e percebi que embora tortuoso, meu caminho foi bem traçado , desafiando a lógica , onde menos ganho economicamente, é onde mais tenho recompensas.
Fiz amigos ... foi um tempo de encontros e reencontros (como são bons os reencontros! Como é bom vivenciar as conquistas daqueles que num passado tão próximo, encontravam-se mergulhados em dúvidas... e agora triunfam... como é bom resgatar gente tão querida, porém esquecida pelos meandros do tempo...). E nessa paradoxalidade constante da vida, foi na adversidade que os laços tornaram-se mais coesos, nua e frágil encontrei afago e mãos estendidas.
Passaram por mim , dezenas de pessoas, parceiros de copo , de farra, de conversas conjecturais , de papo fiado, de reflexão, de cama, de samba....muitos passaram, muitos se foram, mas fico feliz em perceber que o saldo foi favorável , e preciso das duas mãos para somar os que hoje posso chamar de AMIGOS.
Aprendi empiricamente, infelizmente talvez, já que é difícil conviver com a decepção , que existem pessoas de “aura negra”, mais que uma metáfora, a expressão é até generosa para adjetivar os quatro por cento de psicopatas que estão entre nós, uma em cada vinte e cinco pessoas, têm transtorno de personalidade antissocial. Em graus que variam de leve a grave (os que matam, raros, graças a Deus ! ) , são, segundo a Dra Ana Beatriz Barbosa Silva , no seu livro Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado, pessoas encantadoras, boas de papo, simpáticas, porém manipuladoras, que se fazem de vítimas e agem com extrema racionalidade e frieza, fazem intrigas e mentem para conseguirem vantagens sobretudo econômicas daqueles que caem em suas teias. Tomam atitudes baseadas na impulsividade, não têm autocontrole, são egocêntricas e nunca admitem um erro.
Embora pareçam características comuns a algumas pessoas que conheçamos, a soma delas transforma alguns indivíduos, em vermes da humanidade. Piores que abutres, pois vermes são seres medíocres . Infelizmente são muitos, um em cada vinte e cinco, daí a probabilidade de esbarrar com um no meio do caminho e se tornar a vítima da vez. Pior ainda é perceber que vivemos numa sociedade que valoriza o individualismo, premia a “esperteza” e está cada vez mais atolada em valores frívolos.
Poderia portanto , temer que a porcentagem aumente com o passar dos anos e que tenhamos que conviver com milhares de psicopatas no futuro, mas me lembro dos meus amigos e das pessoas com quem convivi, mesmo por um período curto, foram encontros incontáveis... olhares sinceros, trocas verdadeiras, carinho recíproco, convivência, comunhão... prontidão... porque assim é a amizade, é a ausência de expectativas, de recompensas... Então o saldo ainda é muito positivo, pois se conheci de perto a psicopatia de um, pude também vivenciar a poesia de muitos... e posso assim continuar acreditando nas pessoas... e amá-las, e estar de prontidão, e viver em comunhão.....Bem vindo 2009!!!!!!!!!!!!!
( Vinícius de Moraes )
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Visualização dos artigos postados o: 01/01/2001
A cidade triste, banhada em lágrimas de chuva, se despedia do ano. Das amarguras, dos dissabores, das ausências , das expectativas frustradas, dos encantamentos insossos, dos medos...Vestida de branco, sob rojões, uma nova esperança nascia , como antes, como sempre, embora efêmera, como as falsas estrelas estrondosas,estridentes, que insistiam em iluminar o céu negro e úmido.
Mas dois entre tantos, mais dois dos milhares também trôpegos, tolos, bêbados e solitários, ali espreitados pelo olhar ora condescendente, ora impiedoso do mar, trocaram sorrisos, abraçaram-se demoradamente e depois se beijaram de forma indireta bebendo no gargalo alheio a champanhe morna, um do outro, como forma de comemorar, como forma de expurgar , como forma de fecundar anseios , quiçá quimeras, construídas num lampejo , no primeiro segundo do ano que começava.
Deram-se as mãos como velhos conhecidos, resguardados, protegidos, pela respeitosa senhora Praia de Copacabana. Chutaram a água, correram feito meninos, sentaram na areia e observaram durante horas o horizonte camuflado pela noite. E assim abraçados e emocionados, como num pacto silencioso não disseram palavras, permaneciam juntos, porém distantes, relendo os passos das suas histórias tão distintas, na escuridão do mar.
Sequer eram belos, ele, meio calvo apesar da pouca idade, tinha a pele branquinha marcada por alguns sinais, olhos curiosos encobertos pelos óculos redondos davam-lhe um ar de intelectual, parecia um desses professores de história ou filosofia que gostam de discorrer sobre as mazelas da vida. Mas na verdade era músico, e dos bons. Ritmava com o violão os versos românticos que ele mesmo fazia. Era sensível tinha um gosto extraordinário pelas coisas simples, conseguia ver nas entrelinhas, nas minúcias da natureza e das pessoas o melhor das suas essências, compunha até na chuva, versava nos dias nublados e se emocionava com os meninos malabaristas espalhados nos sinais, era poeta.
Viera para o Brasil ainda criança, mas o sotaque das Antilhas ainda o perseguia, embora seus versos fossem em bom português. E era o Rio, a praia emoldurada por montanhas e prédios e a “carioquice” irreverente, seus maiores inspiradores. Davam cor às palavras e um ritmo doce à sua melodia.
Era poeta e apaixonado, tão apaixonado que não conseguia se render a uma só paixão, tinha um amor universal que se revelava em tudo que produzia, sempre com uma, beleza tão rara quanto especial. E assim prosseguia, viajante do tempo, parceiro da vida, sem questionamentos estéreis, sem conclusões banais, sem confusões pessoais, sem solidão.
Na noite de Reveillon, era só um menino, perdido dos seus sonhos, naufragado em champanhe , buscando algo que desconhecia, e acabou por encontrar em meio à chuva fria, uma alma passante , descrente, hesitante, diferente da sua e que nunca saberia dos meandros da sua existência.
Era ela uma pessoa comum, uma mulher como outras tantas, sem música, sem poesia, envolta em problemas, que permeiam nosso dia a dia. Devia ter uns quarenta, dois filhos ou mais, um metro e setenta e bronzeada demais. Olhos castanhos, olhar sem premissas, madura e saudosa de um tempo que não voltaria jamais, perdera a utopia, os sonhos, a fantasia e alguém que julgara , erroneamente como sempre, aquele que seria seu parceiro e amante.
Na noite de Reveillon era apenas mais uma, bebendo a revelia, sem pensar no amanhã, e acabou por tornar-se a preia de um delírio fascinante, uma bolha de champanhe que perdura, um fogo de artifício incandescente.
Mas antes que o sol despertasse para fazer emergir a realidade lacerante, extravasaram a emoção latejante que pulsava no peito e se estendia nas mãos suadas entrelaçadas e apertadas. Seus lábios se encontraram e desvendaram todos os mistérios e segredos que os interessava conhecer para viver o momento.
Amaram-se intensamente ali na boca da praia, sobre a areia encharcada de saliva salgada da língua insistente, sedutora e traiçoeira do mar . Esse espelho contundente da vida, trazendo ondas, assim como os dias, que partem, para nunca mais voltar.
com nuanças de Shakespeare, Goethe e Sartre
me enveredei numa comédia romântica
um filme mudo,estrelado por Chaplin
me desviei por impulso e fraqueza
vivi uma ópera – western
meu drama caipira
um romance sem pé nem cabeça
uma lenda de fada e curupira
hoje assisto a essa peça trash
sou atento espectador
mas também sou atriz
ao final, vou aplaudir o espetáculo
no palco da vida
meu papel,
é ser feliz.
Seria o fato , apenas incidente trágico
se não nos levasse à reflexão
se não transtornasse e amedrontasse
as vítimas dessa tal civilização
é mais um corpo torturado
um assassinato, uma violação
um Tim a menos,um crime a mais
é só um caso sem solução
que choca a alguns, a outros nem isso
virou banalidade, nos jornais
a brutalidade , os excluídos
e presas inocentes de marginais
O PIB cresce, o País muda ?
tem quem pense que isso é fase
temos fábricas bem montadas
prédios bonitos e universidades
Brasil moderno, globalizado
povo inculto , refém e armado
a guerra é em outro continente
nunca chega perto da gente....(?)
...e o gado segue a sua sina
pasta e caga à vontade
ruminando a democracia
uma liberdade pela metade
já não podemos sair à rua
sem ter medo de assalto
sem imaginar que uma bala perdida
pode destruir nossos sonhos e projetos
se isso é paz , então me expliquem
o que é guerra civil?
Mas a Babete tem caviar
e vinho de primeira linha
só não chamaram para festa
o povo da periferia...
então vamos continuar com a tranqüilidade
que reina nos condomínios
com grades e com correntes
pra proteger nossos filhos
enquanto os meninos pardinhos
fazem malabarismos no sinal
e quem disser que miséria
não rima com violência
posso apontar mil crianças
que já nascem sem esperança
que afrontam que agridem
e não sabem do amanhã
destituídos de afeto
de piedade e de pão
só lhes resta venerar um ídolo
que tem uma escopeta na mão
A cidade amorfa
com seus passantes gélidos
caricaturas estúpidas
manequins de vitrine
A cidade gélida
com seus passantes amorfos
caricaturas da vitrine
manequins estúpidos
A cidade estúpida
com seus passantes na vitrine
caricaturas gélidas
manequins amorfos
- Pois não ! temos vários à escolher.
Tenho aqui um, num preço muito bom !
a oferta é maior que a procura, botamos em liquidação !
é um amor colorido atende por qualquer nome,
não é de grande qualidade,mas compensa pelo valor !
a base é de papelão,
derrete na primeira chuva ,
o conteúdo é só ilusão
e um monte de palavra vazia...
- Esse não quero !
preciso de produto mais duradouro,
um sentimento mais consistente.
A base, quero de gente
e o conteúdo, de poesia
- Posso oferecer coisa mais forte,
tem um, bem resistente,
não esquece data importante,
escolhe as suas roupas,
regula decotes e amigos,
não te deixa correr perigo,
está sempre por perto..
..passa muita confiança
e sua palavra é um decreto
- Esse é o tal amor que sufoca,
é egoísta e possessivo,
a base é de ciúmes
o conteúdo , insegurança...
chamo de amor corrosivo....
Você não tem algo mais leve ?
- Tem aquele em tom pastel,
é bastante indulgente,
não restringe, não controla...
vendo por qualquer preço
Tem quem ache interessante
o único problema é que é dispersivo,
às vezes esquece o endereço....
e elege outra amante
- É o amor displicente....
não cuida , não alimenta....
está sempre ausente...
também não quero esse
-Tenho um que é muito procurado !
é o amor que está na moda !
é todo em vermelho carmim...
é amor de puro desejo,
acende com qualquer lampejo.
Garante gozos inesquecíveis,
no mínimo, três orgasmos por dia !
identifica todos os pontos:
“Gê” , “Ka”, “Alfa”, “Beta” e “Gama” ,
na cama, diz que te ama
e que não vive sem você !
- É o amor de sensação !
Excelente no durante...
mas acaba depois do clímax
conhece tudo do lado de fora,
mas não entende de emoção !
O que eu quero , chamo de amor de verdade.
É sexo com mestria, com ternura e acuidade
Amizade ,confiança e muita sensibilidade
Tem um tom perolado, parecido com a cor da lua
Quero um amor que se excite com meu cheiro
antes mesmo de me deixar nua
Seja sensível e piedoso...
Fique emocionado com uma canção antiga
e se comova com um menino de rua,
Acaricie meu corpo inteiro
e cada centímetro do coração....
Conheça o caminho da minha loucura
E o pouso da minha paixão
- Sinto muito, esse não tenho,
na verdade nunca vi,
a senhora tem certeza que existe...
esse tal amor profundo,
não seria um sentimento idealizado,
uma coisa do outro mundo ?
- Pode ser que esteja enganada ,
há muito tenho procurado,
....mas é o único que me atende,
não aceito segunda linha,
produto duvidoso
de origem não-confiável,
com um rótulo garboso...
- Há um que não lhe mostrei,
ali, na prateleira mais alta !
- Esse , felizmente já tenho ,
carrego a vida inteira,
é o único que não pode faltar,
do contrário, não temos outros,
é preciso renovar constantemente
deixar brilhante e sempre em cima.
Podemos chamar de amor - próprio
ou então, de auto-estima.
Minha boca cerrada
já não encerra o grito
o alívio da alma
a catarse e o alvitre
faz-se muda
diante dos fatos
perdeu seu anseios
sua essência, seus mitos
Minha boca ressequida
já não mata minha sede
perdeu-se entre fatos
anseios e mitos
calou seu grito
cerrou-me a alma
perdeu sua essência
a altivez e o alvitre
Esbarrei no meio do caminho
Com um velho desmiolado
Fedido e mal arrumado
Desses que vemos todo dia...
Mas esse era diferente,
Mesmo com seu jeito demente
Alguma coisa nele, atraía
E fazia juntar gente
De perto poucos ficavam
O cheiro de mijo, incomodava
À certa distância, porém, parecia
Um ente de um reinado perdido
Tinha pose pricipesca
A palavra bem impostada
E mesmo quem não quisesse
A sua história ouvia.
Contava que num canto qualquer havia
Um reino encantado
Mas tudo foi construído
Pelo povo que lá habitava
Nem sempre foi daquele jeito
Mas aquela gente determinada
Mudou o rumo do seu mundo
E construiu um país, que seria ,o nosso contrário.
Era um povo operário
Incansável e altruísta
Dominados por um governo perdulário
Que lhes sugava todo salário
Decidiram então que mais nada dariam
Aos dirigentes, para que eles fizessem
O que diziam que fariam
E no entanto nunca fizeram
Fizeram então eles mesmos
O que deveria ser feito
Ajudaram-se uns aos outros, em tudo que podiam
E o dinheiro dos impostos, depositaram em juízo
Na conta dos excluídos.
O governo, ficou no prejuízo
Mas o povo enriquecia
E aos poucos esqueciam
Que tiveram um líder
Incompetente e autoritário.
E o que era ninharia
Se transformava em milhão
Aquela gente sem querer fazia,
Uma grande revolução
O governo salafrário
Que pensava que o povo era otário
Dizem, que veio para o Brasil !
Não direi : te amo
Não espere de mim
um lindo poema de amor
Não te darei palavras escritas
Todas as letras serão ditas
em gestos, em toques ...
em arroubos
em estrondos
em emoção
Com um maissssssssss
no teu ouvido
um sussurro, um gemido
Com a mão inquieta
Com um não vacilante
Com uma risada gostosa
No banho de vinho
No banho relaxante
No banho de gato
Entre as paredes do quarto
Entre minhas pernas
Entre nossos suores
Quando me deixares de quatro
Quando me deixares de joelhos
Quando me deixares morta
Completamente perdida
Exaurida
E apaixonada por você
“Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa / Não sou alegre nem sou triste / sou poeta.” (Cecília Meirelles)
Muitos são os instantes cantados pelos regentes das palavras. Poesia é assim, tem distintas fases, diversas faces. Ora é catarse, ora reflexão. Munidos de versos os poetas são capazes de nos envolver numa emaranhada teia de questionamentos ou simplesmente exacerbar nossos mais caros sentimentos. A poesia denuncia, apazigua, encanta, emociona, nos deixa perplexos diante de esculturas perfeitas trabalhadas em letras e emoção. Existem poemas que nos surpreendem , mesmo quando descrevem situações com as quais nos deparamos constantemente. A realidade em versos é explícita, doída, nos acerta um soco no estômago e nos faz acordar...
“ Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos ( Manuel Bandeira )
Outros grandes maestros são extremamente realistas e contundentes e nos conscientizam, expondo as misérias sofridas por tantos homens-bicho da nossa sociedade fragmentada.“Somos muitos Severinos / iguais em tudo e na sina / a de abrandar estas pedras / suando-se muito em cima / a de tentar despertar / terra sempre mais extinta” ( João Cabral de Melo Neto )
Também é desconfortável a poesia espelho, aquela que mostra nosso retrato estampado nas palavras e nos leva a pensar na transitoriedade e nas contradições da vida .
“E agora, José? / A festa acabou / a luz apagou ,o povo sumiu, / a noite esfriou,e agora, José? / e agora, Você ? ( Carlos Drummond de Andrade )
Mas talvez o bom seja apenas sentir os versos , talvez a poesia não seja feita para pensarmos nela , assim como o mundo...“O Mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...” ( Fernando Pessoa )
E então, livres do pensar, podemos nos embriagar de palavras , que nos deixarão desorientados, perplexos ,emocionados ou encantados, mas jamais indiferentes. Quando tanto nos falta, é fundamental bebermos do néctar-seiva poesia para continuarmos acreditando no amor e na vida. Posto que poesia é o fato eternizado na escrita mas é também e acima de tudo a esperança tatuada nas entrelinhas dos poetas.
“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens” ( Vinícius de Moraes )
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