“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Visualização dos artigos postados o: 01/01/2001

Nov152009

DISSONÂNCIA

O que fazer com a canção

Que nasce sem melodia

Onde não se acha o tom

O compasso e a poesia

Conjunto de cifras áridas

Mistura  de sentimentos,

Ritmo  que confunde os ouvidos

E  enlouquece o coração

Sinfonia sem nexo, sem sentido

Música  que ecoa muda

Destoante da partitura

Sem motivo que justifique

Um concerto ou recital

Frangalhos duma harmonia

Sem nota musical   

Fabi · 69 vistos · 3 comentários
Out182009

É PRECISO FUGIR ....

antes que a lança
atinja seu alvo 

antes que a vontade
silencie a razão 

antes que a barragem
não contenha a vazão 

antes que o peito
se torne clausura 

antes que  armadilha
segure a raposa 

antes que a barricada
não iniba o fuzil

antes que a loucura
vença o medo

antes que o sol
desvende segredos 

antes que minha boca
se encontre com a tua   

Fabi · 63 vistos · 1 comentário
Out172009

ESTEREÓTIPOS



Não sou um pássaro taciturno
De vôo solo , noturno
Eu sou um pouco mais 

Não sou santa, não sou pura
Rainha obscura
Eu sou um pouco mais 

Não sou hedônica, nem vazia
A personificação da alegria
Eu sou um pouco mais 

Não sou Afrodite, deusa da beleza
Uma Vênus de cama e mesa
Eu sou um pouco mais

Não sou criança inocente
Brinquedo inconseqüente
Eu sou um pouco mais 

Não sou feia, não sou bela
As cores da aquarela
Eu sou um pouco mais

Não sou fôrma, nem lazer
Objeto de prazer
Eu sou um pouco mais

Não sou a mocinha da novela
Romântica e singela
Eu sou um pouco mais 

Não sou doce e meiguinha
Uma cara bonitinha
Eu sou um pouco mais

Não sou cipreste carrancudo
Rebelde com o mundo
Eu sou um pouco mais 

Não sou gerente nem diretriz
A melhor protagonista, uma grande atriz
Eu sou um pouco mais 

Não sou ungüento, não sou vacina
Uma adorável  menina
Eu sou um pouco mais 

Não sou dublê, substituto
Boneco de ventríloquo
Eu sou um pouco mais 

Não sou pobrezinha, nem iludida
Uma deslumbrada  com a vida
Eu sou um pouco mais   

Não sou um gênio, grande conhecedor
A empáfia de um ditador
Eu sou um pouco mais 

Não sou a lógica maniqueísta

Nem tratado pacifista
Eu sou um pouco mais 

Não sou fêmea indulgente
Porta-voz de gemidos
Depósito de libido,
De líquido quente 


Eu sou gente.
 

Fabi · 54 vistos · 1 comentário
Out112009

RIACHO
Desviei minha vertente, 
desejava um oceano...
desagüei em ribeirão... 
virei parte de outras águas
um curso sem precisão
tão distante , tão distinto
um córrego sem afluente,
sem nascente  e  sem foz
de margens erodidas
e  cascatas sem voz 
sedimentos depositados ...
(o assoreamento  da vida)
riacho sem correnteza
de meandros sinuosos
sem seixos, sem beleza
sem nada... 

Faço então uma barragem
provoco uma inundação
espalho todas as águas
buscando  nova direção... 
há um mar à minha espera
muitas trilhas, muitas quedas
dispenso a calmaria...
quero encostas,  cataratas
desbravar mata virgem
abrir sulcos na rocha dura
e persistir nesta  trajetória
aguardando a tão desejada  hora
de encontrar meu  Oceano bravio
um orgasmo do eu - rio
numa deslumbrante pororoca 

Fabi · 79 vistos · 1 comentário
Set272009

AS MÃOS

As mãos que ora se erguem
a lançar-te dolorido adeus
são as mesmas que sanaram feridas
e foram acalanto, pros prantos teus
contiveram a hemorragia profusa
que vertia da tua alma confusa.... 

ungiram as chagas do teu peito
acolheram  teu coração
aplacaram a solidão dos dias
te deram alegrias, curaram traumas...
E nas noites fugidias
foram pouso, do teu prazer...
traduziam caladas em carícias
o que as palavras não sabiam dizer 

As mãos que ora escrevem
solitárias na noite fria
enxugam também as tormentas
que emanam do meu degredo
tentando emergir  em vão
o naufrágio da fantasia 

Seguirão insones pela vida
guardando nas linhas , segredos
marcas invisíveis e intensas
deixadas pelos teus dedos
das vezes que se encontraram
e se fundiram como aço ao  calor
Nas minhas mãos faltam pedaços
deixados por teu desamor 

Fabi · 70 vistos · 1 comentário
Ago222009

A TRUPE


Desisti de entender as pessoas
Creio , ser isso , coisa mesmo de profissão
De psicólogo, preto-velho , cartomante
Taxista, vizinho fofoqueiro, porteiro
Isso é  coisa de mãe, 

E se não levo jeito pra coisa
Me acostumei só , na solidão
Das palavras e da imaginação
A misturar essa gente que passa por mim
De forma perene , permanente
Ou num breve lapso de tempo
E transformá-las em criação 

As faço personagens...
Dum picadeiro tragicômico
Um teatro manicômio,
Escondendo os  ratos na cocheira
Com um letreiro de neon,
Exibindo a palavra VIDA 

E do melhor e pior de cada um...
Crio uma puta , um mendigo
Um débil mental ou um monge
Um gigolô ou nazista
Um entusiasta, um idealista
Um poeta, um bêbado
Um romântico incurável,
Uma ninfeta insaciável
Um tarado de pau pequeno
Um viciado megalômano
Um gay bem resolvido
E um político ladrão. 

Misturo  neurose e insatisfação
Beijo na boca, pegação
Mentira , manipulação
Inocência , utopia
Devaneios de pé no chão

Me frustro, no entanto
Num the end, que nunca chega
Num happy end impossível
E tanta falta de originalidade     

Fabi · 216 vistos · 3 comentários
Ago212009

RECADO

Hoje a poesia cria asas
vai pousar na tua  janela
vai voando  até aí
leva um verso açucarado
meu poema apaixonado
rimas de um sonho, que esculpi

tem um apelo escancarado
é piegas , ultrapassado
não tem  escrúpulos, nem pudor
pede manhoso, afobado
num só fôlego ritmado
“meu amor, liga pra mim” 

são palavras perfumadas
adornadas numa caixa
cheirando a alecrim
é um lírio ou uma rosa ?
um  poema meio prosa?
é o retrato do meu  jardim

é um pedido , um chamado
uma promessa , uma ressalva
uma trégua no meu temor
não é carta  ao bom amigo
é confissão ao meu amado
ao meu homem, meu amor

Fabi · 47 vistos · 0 comentários
Ago112009

O LÚDICO


Cinco crianças brincavam a beira da piscina , com baldes, bonequinhos, carrinhos etc... Volta e meia pulavam na água , se agarravam na tentativa de dar um caldo uns nos outros. Voltavam à borda , pegavam objetos... viajavam... cada um na sua maionese particular . Tocavam-se , riam ... ora um  se aproximava , outro se afastava ... e assim ficaram boa parte da manhã... Observando-os tracei um paralelo com a nossa sexualidade  nos  tempos atuais. Também brincamos assim. Ficamos à beira dos sentimentos , com receio de nos molharmos ou de nos afogarmos . Nos tocamos brevemente e viajamos numa  maionese individualista com novos brinquedos...

Fabi · 72 vistos · 0 comentários
Jul232009

TRICÔ GRATINADO

Comprei na banca da esquina
um livro de receita, formal
E
nsinava a fazer tricô
com duas agulhas fininhas
Um bolo de chocolate
recheado com licor
Ensinava a fazer amor
(em pedaços)
sem cobertura
sem tempero , com pouco sal...
Tinha uma receita de pão
de sopa , de molho inglês
Receita de felicidade
De bom senso,de bom gosto
Mandava amassar tudo
Untar a forma e derramar
Sovar a manteiga e a farinha
Por no forno moderado
E depois, desenformar

 Mas não gosto de receita pronta
prefiro improvisar
Tudo que é demasiado formal
enjoa , é bobo e banal
Então, faço tricô na cama
usando uma agulha só
Duas laçadas e um nó
embolando os fios do novelo
Uso pedrinhas de gelo
...
chocolate e  licor
Não deixo a  sopa esfriar,
mantendo o forno bem esquentado
Asso o pão devagar
depois de sovar com jeitinho
não  precisa untar...
basta usar bom senso,
ingredientes de bom gosto...
ter paladar apurado
e ser um bom degustador  

Fabi · 41 vistos · 0 comentários
Jul122009

MATURAÇÃO

Deixa que chegue
Sem se fazer anunciar
Sem alardear
Sem me espantar 

Deixa ficar
Deixa assim 

Desse jeito manso
Desse jeito calado
Desse jeito desajeitado

Sem palavras
Sem rimar

Deixa como está
Deixa o olhar

A mão suada
A voz calada
O passo teso
A face rubra

O medo
A evasão
O desejo 

Um beijo?
Não..... 

Deixa o coração.....

Falar
Ouvir
Calar
Sentir 

Fabi · 52 vistos · 0 comentários

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