Amor é sentimento assaz esquisito
Dele, todo mundo fala
Mas cada um, fala dum jeito
Eu mesma já escrevi, me esvaí
Em incontáveis versos e prosas
Em confissões nem tão verdadeiras
Em descrições de fofoqueira...
Já falei do amor dos outros
Como se meu, o próprio fosse
Roubei gestos, cenas, cheiros
Roubei palavras
Que desejei a mim
Tivessem sido destinadas
Vivi sentimentos misturados
Não separei o joio do trigo
Senti tesão por amigo
Dispensei um bom partido
Inventei príncipe encantado
Transei com moço bonito
Pra me sentir mais desejada
Mixagem de situações
Com um quê de saudade
Do que sequer foi vivido
O troço é mesmo estranho
É coisa que não se explica
Não tem tamanho nem medida
Parece feito de nuvem
Mas tem força de cachoeira
Cor de cavalo marinho
Cheiro doce de abiu
Chega manso, sorrateiro
Te pega de calça arriada
Arrasa teorias
E premissas bem arraigadas
Desfaz aquelas promessas
Feitas no desespero
De um cotovelo arruinado
Te deixa com cara de besta
Com sorriso abobalhado
um símil de orangotango
com olhar de palhaço
sem definição ou parâmetro
sem incontáveis
versos e prosas
são gestos,
cenas, cheiros
sem palavra
que o defina.