“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Visualização dos artigos postados o: 01/01/2001

Fev032009

MATERNIDADE
O fato
O feto

O parto

Um ser


Olhos marejados...
Um medo esquisito
O espanto...
Diante do grito

U
m misto de incerteza
E plenitude 

O fardo
da responsabilidade
(incontestável) 

A dádiva
da felicidade
(inenarrável) 

Fascinação...
em meio às noites mal dormidas... 

O leite que não desce
O cocô que amolece
As cólicas doloridas
Um sorriso que enternece...

O dente pioneiro
O passo inseguro
O tombo da escada 
Tantas fisgadas na barriga... 

A corrida de bicicleta
Um joelho  ralado
O futebol da esquina 
Coração apertado...  

Um buço escurecido...
Nosso carro emprestado...
O telefonema escondido...
Um concurso premiado...
A noitada com a galera...
O esforço reconhecido...
Angústias e quimeras... 

Fascinação...
Em meio às noites mal dormidas... 

O fato
O homem
Novo parto
Novo  ser 

O fardo
da responsabilidade
(incontestável) 

A dádiva
da felicidade
(inenarrável ) 

Maternidade...
Um motivo
Pra viver....

Fabi · 34 vistos · 0 comentários
Jan292009

O Mar
Essa onda que num minuto me convida
Lambe-me morna e me encanta
No outro me nega guarida
Me expulsa, arredia, se agiganta

Se insisto, novamente me acolhe
Faz-se mansa, me pedindo para ficar
E por mais que me excite, me molhe
Receio a revolta de outra preamar

Desfaleço no berço da areia
Onde o sol , não nega calor
Com vontade , me entrego inteira
Ao astro da luz, meu amo e senhor
 
Mas a noite não tarda a chegar
E a lua cheia, não aquece o chão
Então peço desculpas ao mar
E me ofereço para um ritual de paixão

Fabi · 42 vistos · 0 comentários
Jan282009

CINEMA NOVO

Já houve um tempo
que transmutava emoções para o cérebro
desempenhava qualquer papel
decorava as falas
era uma grande atriz 

Era o tempo
em que seguia o roteiro
não questionava o diretor
atuava como santa, rainha ou meretriz
fazia cenas de ternura, de lamúria ou amor 

Faz tempo
que meu tesão era teleguiado
um misto de desejos comandados
que seguiam ordens
e instintos racionalizados

Passou o tempo
que fazia a mais perfeita ficção
acreditava num estilo impostado
impostor da verdadeira emoção

teatro travestido de grande amor


Nesse novo tempo
ouso rasgar o script
modifico diálogos , iluminação e cenário
sou  única: diretora, roteirista e atriz
se minha vida há de ser filme...
...que seja, um documentário

Fabi · 36 vistos · 0 comentários
Jan272009

O ÚLTIMO DIA

   

           

           Hoje, Bezerra caminhava a passos mais lentos , o posto já estaria fechado  para o público, aguardando a reinauguração na semana seguinte. Viria o Prefeito, o Secretário de Saúde e de certo sairia nos jornais. Propaganda boa para campanha política, não passaria despercebido o evento corriqueiro, que para ele era um marco na vida.


            Finalmente, o velho posto de saúde do Largo do Machado foi reformado. Mudaram tudo. Depois de passar 30 de seus anos como funcionário público , distribuindo números que ele mesmo fazia com pedaços de papelão e esferográfica , seria substituído por uma máquina simples, onde os próprios pacientes retirariam suas senhas , a fim de aguardar a vez de serem atendidos  por moças jovens bem uniformizadas  de uma empresa terceirizada .Elas preencheriam as fichas nos computadores e depois as encaminhariam aos doutores especializados. Tudo tão diferente...      
    
          
Ninguém faria o trabalho como Glorinha, que estava se aposentando junto com ele, depois de prestar  serviço com alegria e humanidade por tantos anos. Glorinha ficou com o cargo de preencher as fichas da recepção por que tinha uma caligrafia perfeita, as letras maiúsculas dos nomes dos pacientes davam-lhes até mais importância. Fazia inúmeras voltinhas na confecção de um H, o L era majestoso e ocupava uma área grande na linha. Uma vez, recebeu dela um bilhete simples, cujo teor mal se lembrava, mas o B de seu nome  minuciosamente desenhado, jamais lhe saíra da memória
   

        Glorinha costumava dar sempre um jeitinho de passar à frente aqueles que ela pré diagnosticava como casos mais sérios. Por isso era tão amada , ganhava desde presentes bons como água de colônia até saquinhos de bala de coco , que ela recebia sempre com o mesmo  entusiasmo , com o mesmo sorriso emoldurado pelo batom , que retocava a cada meia hora. Nunca perdera a vaidade. Durante todos esses anos , mesmo grávida dos gêmeos o que a deixou imensa, mesmo quando perdeu o primogênito num acidente de trem e até na  viuvez prematura, Glorinha jamais perdera o viço, havia sempre um brilho de otimismo e um gosto único pela vida retratados nos seus olhos redondos e enormes que ela contornava com sombra azul.  Ganhara mais quilos com o passar do tempo, mas não abandonou as calças justíssimas que combinavam com blusas de estampas alegres. O cabelo sempre usou bem curtinho, ultimamente, estava vermelho. Brincos grandes faziam conjunto com o colar, e ainda tinha  aquele  sorriso. Durante trinta anos Bezerra observara o sorriso e o timbre de voz alto de Glorinha que distraía os pacientes contando casos da sua vida. Nem  mesmo Jurema no auge da juventude tivera tanta graça. 

         Jurema era uma mulata graúda, de quadris largos, que prestava serviços a Bezerra , todo  dia de pagamento era sagrado. Subia a escadaria do cortiço da rua Alice, feliz e ansioso pelo gozo merecido e único do mês. Depois dos quatro filhos, Jurema perdeu muito da sua beleza jovem. A barriga caiu sobre o púbis, os peitos encontraram a linha da cintura larga e a longa cabeleira negra de henê, deu lugar  à fios de nylon cacheados e mal cheirosos. Mas Bezerra não substituiu seus serviços pelos de mulheres mais jovens por ter uma espécie de fidelidade subserviente  à Jurema , que já nem cobrava preço fixo, aceitava de bom grado umas bugigangas da Rua da Alfândega , que ele comprava antes de visitá-la.
 
          Desde que entrou para o posto,  Bezerra visitava Jurema em uma constância quase religiosa . Da mesma forma cumpria, diariamente, a promessa que fez à São Francisco de Assis , que lhe ajudou a passar no concurso. Prometera alimentar animais e escolhera os pombos do Largo do Machado , pela facilidade , já que cruzava a praça para chegar ao seu destino, e pelo baixo custo do alimento, o milho cabia bem no seu orçamento parco. O inconveniente era os excrementos que volta e meia uma ave mal agradecida lhe mandava das alturas. Marlene é que reclamava, dizia que era preciso deixar as camisas de molho para tirar as manchas de bosta de pombo. Mas Marlene reclamava de tudo. Sempre foi assim, e ele acreditou durante muitos anos que era por causa da frigidez. Marlene  não gozava, nem no começo do casamento, quando ele ainda acreditava que ela fazia parte do seu destino e devia amá-la de alguma forma. Seus pais foram  amigos e arquitetaram o encontro dos dois. O pai de Marlene morreu pouco antes deles se casarem, por complicações causadas por uma cirrose, deixou-lhes o apartamento do Bairro de Fátima, onde moravam. Ela não era má pessoa, reclamava de tudo, mas cuidava bem da sua roupa, e sempre deixava o jantar enrolado num pano de prato encardido, que baratinhas miúdas de pernas compridas insistiam em fazer de albergue , era preciso desfazer o nó com cuidado para evitar que alguma mais ousada, viesse a fazer parte da sua ceia noturna. Algumas coisas Marlene fazia bem, frango ensopado com batata, carne moída com abobrinha, guisado  de chuchu com repolho... Mas o quiabo que ela cozinhava misturado com lingüiça, o afrontava , não descia, e Marlene reclamava do desperdício e xingava por horas a fio, ao encontrar o prato intocado sobre a pia. Mas o quiabo não descia, lhe parecia um réptil babento de mil  olhos, a debochar da sua vida débil. Era preferível ouví-la reclamar às terças feiras, dia do quiabo, a enfrentar o monstro verde.        

       
A condescendência apoiada na sua teoria, mudou de fundamentação, depois de uma  quinta feira em que voltou para buscar o guarda- chuva por conta de uns pingos . Ouviu uns gemidos abafados que vinham do porão do prédio. Seguindo-os, avistou por uma rachadura entre a moldura da porta e a parede , Marlene com o vestido levantado, com seu Teobaldo, um senhor meio surdo que era porteiro do prédio pra lá de quinze anos, a fazendo visitar estrelas. Ela grunhia pressionando a cabeça dele entre seus seios, enquanto ele fazia um malabarismo esquisito para compensar a pouca estatura. Bezerra viu que Marlene gozava e gostava , e gritava de prazer ignorando por completo o terrível odor da lixeira tão próxima. A cena não lhe despertou nenhuma forma de ciúme, ficou com pena de seu Teobaldo quase sufocado pelos peitos imensos da Marlene. E dela sentiu uma espécie de nojo  , quando a viu voltar a calcinha de elástico frouxo pro lugar e tentar limpar o esperma ralo do porteiro que lhe escorria entre as  coxas com o vestido de jérsei que não tinha nenhum poder de absorção. Também não se sentiu traído, ela tinha seu Teobaldo e ele sempre tivera Jurema, que ao menos na juventude , quando ainda gozava, o fazia de  forma mais elegante.

          Passou pelos pombos ignorando-os, a aposentadoria chegara, estava quite com São Francisco. Cruzou a praça com o guarda - chuva na mão esquerda, que desde aquela quinta feira fez questão de nunca mais esquecer , e na direita o saquinho pardo com milho, que se negou a distribuir aos pombos, talvez fosse uma vingança secreta contra as tantas cagadas que levou na cabeça.


         O clima era de festa na repartição. Enquanto ele retirava alguns pertences da gaveta da escrivaninha de aço, Glorinha comemorava na sala em frente com alguns  funcionários. De soslaio observava a alegria dos colegas , sabia que podia e devia participar, mas sentia uma inquietação indescritível. Glorinha, percebendo a timidez do amigo se aproximou com um pedaço de bolo e um copo de guaraná  . Bezerra ao vê-la chegar tão perto, sentiu uma tormenta invadir-lhe o peito, como se seu órgão maior quisesse saltar. Pensou que morreria quando ela pousou sobre a mesa o prato e o copo para dar-lhe um apertado abraço seguido de um beijo no rosto. 

         O sangue percorreu todas as artérias e veias de Bezerra, simultaneamente, seu rosto ficou quente, como a encosta de um vulcão incandescente, a boca encharcada, não balbuciou palavra . Ficou estático , vendo Glorinha fitar-lhe os olhos demoradamente depois do beijo , e insistir que não faltasse à continuação da festa que seria à noite numa gafieira da Lapa, onde ela costumava dançar .
    

          Bezerra saiu do posto pela última vez, os olhos brilhavam pela primeira. Numa sacola plástica carregava frangalhos de uma existência, no peito, a certeza que estava vivo, e a gafieira da Lapa  era a chama de uma esperança que nunca tivera antes.
        


Fabi · 45 vistos · 1 comentário
Jan262009

DESEJOS
Quero ser teu querer.... 

Teu desejo iminente
Tua vontade, tua saudade, teu umbral
Tuas janelas, tua libertação
Ser tua lua, as estrelas, ser teu sol 

Realizar teus sonhos
Ser tua estrela cadente
Quero que me adentres
Como um rio caudal 

Desperte em mim
Um vulcão incandescente
Serei tua foz, afluente e nascente
E a calmaria do mar satisfeito

Quero tuas mãos contendo minhas montanhas
Que sejas meu vale, serei o teu leito
Quero que escales minhas encostas macias
Quero dormir nas savanas do teu peito

Ofereço meu campo, minha pradaria
Para  que cavalgues tranqüilo e faceiro
E depois exausto , feliz e sereno
Venha  descansar no meu solo moreno 

Serei a doçura dos beijos que anseias
E as asas que te levarão ao céu
Tua  diva , tua rainha , tua gueixa
Untar-te-ei  com lavanda e mel 

Quero ser  poesia inscrita no teu corpo
Um poema sem metáforas, sem rima ou retidão
Levar-te à loucura com secretas fantasias
Ser tua embocadura, teu porto, tua vazão  

Fabi · 34 vistos · 0 comentários
Jan212009

O silêncio é mágico...
É música...
Em abraços enamorados...
Que contemplam o por do sol
Em mãos entrelaçadas
No acalanto da noite fria
Na troca de olhares
Cúmplices  e verdadeiros 

O silêncio é dor
É sofrimento...
Nos braços que se abraçam
Em dolorida  despedida
Em mãos que se erguem
No adeus da noite fria
Na troca de olhares
Mareados e descrentes 

O silêncio é cruel
É perverso...
É  o braço , o tentáculo
Da indiferença desmedida
É a mão que apunhala
na solidão da noite fria
Na ausência de olhares
Corajosos e decididos 

A
palavra é mágica... 
Ainda que cause dor
Ou traduza sofrimento
Tem a beleza da transparência
tem forma,  tem essência
tem o som do sentimento...
é o cheiro da realidade
da verdade definitiva 

Palavras são armas,
São flores e  aromas
A coragem decifrada
O desejo deflagrado
A imagem retratada
É o arco , é a seta
É um corpo natimorto
Ou a alma do poeta... 

Fabi · 27 vistos · 0 comentários
Jan162009

ALÇAPÕES
Das portas que guardo no peito
tenho muitas trancadas a chave
fechaduras emperradas
que preciso arrombar

As portas que guardo lacradas
escondem quartos escuros
ruínas, entulhos, bagulhos
restos, ratos, resquícios 

No quarto da ilusão
tem um sonho pela metade
um desejo sufocado
farrapos de um coração

No quarto da solidão
mora um amor mofado
comido de vermes , apodrecido
estragado, fedido, amassado 

O quarto mal assombrado
tem fantasmas e bruxas
o diabo vestido de anjo
um crucifixo e um punhal 

O quarto da liberdade
 
é feito de  aço e concreto
entra sol pela janela, não tem  tranca,
não tem teto, não tem  tramela 

O quarto do amanhã
tem todas as  portas abertas
paredes  pintadas de cal
o ar cheirando a lavanda
uma varanda e um quintal 

Fabi · 42 vistos · 0 comentários
Jan152009

BALANÇO


           Ano findo, hora de computar perdas, de avaliar, de refletir, de planejar... hora da faxina nas gavetas, de se desfazer do que não serve mais, mas que por um apego infantil ou por falta de coragem nos mantém ligados ao que se pode chamar de lixo. Joguei fora muita coisa: camisetas, vestidos, sapatos, padrões, posturas, versos, mágoas, lembranças, pessoas... O Ano começou com as gavetas limpas e arrumadas, cheias de espaço onde já começo a organizar novas alegrias, grandes surpresas, emoções inesperadas, novas pessoas...   

           Em 2008 aprendi bastante ,subi o morro, e no meu contato com a miséria, descobri uma riqueza imensurável, me apaixonei, me emocionei, me encantei... e percebi que embora tortuoso, meu caminho foi bem traçado , desafiando a lógica , onde menos ganho economicamente, é onde mais tenho recompensas.

            Fiz amigos ... foi um tempo de encontros e reencontros (como são bons os reencontros! Como é bom vivenciar as conquistas daqueles que num passado tão próximo, encontravam-se mergulhados em dúvidas... e agora triunfam... como é bom resgatar  gente tão querida,  porém esquecida pelos meandros do tempo...). E nessa paradoxalidade constante da vida, foi na adversidade que os laços tornaram-se mais coesos, nua e frágil encontrei afago e mãos estendidas. 

            Passaram por mim , dezenas de pessoas, parceiros de copo , de farra, de conversas conjecturais , de papo fiado, de reflexão, de cama, de samba....muitos passaram,  muitos se foram, mas fico feliz em perceber que o saldo foi favorável , e preciso das duas mãos para somar os que  hoje posso chamar de AMIGOS.

             Aprendi empiricamente, infelizmente talvez, já que é difícil conviver com a decepção , que existem pessoas  de “aura negra”, mais que uma metáfora, a expressão é até generosa para adjetivar os quatro por cento de psicopatas que estão entre nós, uma em cada vinte e cinco pessoas, têm transtorno de personalidade antissocial. Em graus que variam de leve a grave (os que matam, raros, graças a Deus ! ) , são, segundo a Dra Ana Beatriz Barbosa Silva , no seu livro Mentes Perigosas – O psicopata mora  ao lado, pessoas encantadoras, boas de papo, simpáticas, porém manipuladoras,  que se fazem de vítimas e agem com extrema racionalidade e frieza, fazem intrigas e mentem para conseguirem vantagens sobretudo econômicas daqueles que caem em suas teias. Tomam atitudes baseadas na impulsividade, não têm autocontrole, são egocêntricas e nunca admitem um erro.

                Embora pareçam características comuns a algumas pessoas que conheçamos, a soma delas transforma alguns indivíduos, em vermes da humanidade. Piores que abutres,  pois vermes são seres medíocres . Infelizmente são muitos, um em cada vinte e cinco, daí a probabilidade de esbarrar com um no meio do caminho e se tornar a vítima da vez. Pior ainda é perceber que vivemos numa sociedade que valoriza o individualismo, premia a “esperteza” e está cada vez mais atolada em valores frívolos.

               Poderia portanto , temer que a porcentagem aumente com o passar dos anos e que tenhamos que conviver com milhares de psicopatas no futuro, mas  me lembro dos meus amigos e das pessoas com quem convivi, mesmo por um período curto, foram encontros incontáveis... olhares sinceros,  trocas verdadeiras,  carinho recíproco, convivência, comunhão... prontidão... porque assim é a amizade, é a ausência de expectativas, de recompensas... Então o saldo ainda é muito positivo, pois se conheci de perto a psicopatia de um, pude também vivenciar a poesia  de muitos... e posso assim continuar acreditando nas pessoas... e amá-las, e estar de prontidão, e viver em comunhão.....Bem vindo 2009!!!!!!!!!!!!!


 

Fabi · 318 vistos · 0 comentários
Dez262008

UM NOVO DIA


         A cidade triste, banhada em lágrimas de chuva, se despedia do ano. Das amarguras, dos dissabores, das ausências , das expectativas frustradas, dos encantamentos insossos, dos medos...Vestida de branco, sob rojões, uma nova esperança nascia , como antes, como sempre, embora  efêmera, como as falsas estrelas estrondosas,estridentes, que insistiam em iluminar o céu negro e úmido.


            Mas dois entre tantos, mais dois dos milhares também trôpegos, tolos, bêbados e solitários, ali espreitados pelo olhar ora condescendente, ora impiedoso do mar, trocaram sorrisos, abraçaram-se demoradamente e depois se beijaram de forma indireta bebendo no gargalo alheio a champanhe morna, um do outro, como forma de comemorar, como forma de expurgar , como forma de fecundar anseios , quiçá quimeras, construídas num lampejo , no primeiro segundo do ano que começava.


            Deram-se as mãos como velhos conhecidos, resguardados, protegidos, pela respeitosa senhora Praia de Copacabana. Chutaram a água, correram feito meninos, sentaram na areia e observaram durante horas o horizonte camuflado pela noite. E assim abraçados e emocionados, como num pacto silencioso não disseram palavras, permaneciam juntos, porém distantes, relendo os passos das suas histórias tão distintas, na escuridão do mar.


            Sequer eram belos, ele, meio calvo apesar da pouca idade, tinha a pele branquinha marcada por alguns sinais, olhos curiosos encobertos pelos óculos redondos davam-lhe um ar de intelectual, parecia um desses professores de história ou filosofia que gostam de discorrer sobre as mazelas  da vida. Mas na verdade era músico, e dos bons. Ritmava com o violão os versos românticos que ele mesmo fazia. Era sensível tinha um gosto extraordinário pelas coisas simples, conseguia ver nas entrelinhas, nas minúcias da natureza e das pessoas o melhor das suas essências, compunha até na chuva, versava nos dias nublados e se emocionava com os meninos malabaristas espalhados nos sinais, era poeta.


            Viera para o Brasil ainda criança, mas o sotaque das Antilhas ainda o perseguia, embora seus versos fossem em bom português. E era o Rio, a praia emoldurada por montanhas e prédios e a “carioquice” irreverente, seus maiores inspiradores. Davam cor às palavras e um ritmo doce à sua melodia.


            Era poeta e apaixonado, tão apaixonado que não conseguia se render a uma só paixão, tinha um amor universal que se revelava em tudo que produzia, sempre com uma, beleza tão rara quanto especial. E assim prosseguia, viajante do tempo, parceiro da vida, sem questionamentos estéreis, sem conclusões banais, sem confusões pessoais, sem solidão.


            Na noite de Reveillon, era só um menino, perdido dos seus sonhos, naufragado em champanhe , buscando algo que desconhecia, e acabou por encontrar em meio à chuva fria, uma alma passante , descrente, hesitante, diferente da sua e que nunca saberia dos meandros  da sua existência.


            Era ela uma pessoa comum, uma mulher como outras tantas, sem música, sem poesia, envolta em problemas, que permeiam nosso dia a dia. Devia ter uns quarenta, dois filhos ou mais, um metro e setenta e bronzeada demais. Olhos castanhos, olhar sem premissas, madura e saudosa de um tempo que não voltaria jamais, perdera a utopia, os sonhos, a fantasia e alguém que julgara , erroneamente como sempre, aquele que seria seu parceiro e  amante.


            Na noite de Reveillon era apenas mais uma, bebendo a revelia, sem pensar no amanhã, e acabou por tornar-se a preia  de um delírio fascinante, uma bolha de champanhe que perdura, um fogo de artifício incandescente.


            Mas antes que o sol despertasse para fazer emergir a realidade lacerante,  extravasaram  a emoção latejante que pulsava no peito e se estendia nas mãos suadas entrelaçadas e apertadas. Seus lábios se encontraram e desvendaram todos os mistérios e segredos que os interessava conhecer para viver o momento.


            Amaram-se intensamente ali na boca da praia, sobre a areia encharcada de saliva salgada da língua insistente, sedutora e traiçoeira do mar . Esse espelho contundente da vida, trazendo ondas, assim como os dias, que partem, para nunca mais voltar.


 

Fabi · 42 vistos · 0 comentários
Dez232008

ESTILOS
Eu que sempre desejei uma  história cult
com nuanças de Shakespeare, Goethe e Sartre
me enveredei numa comédia romântica
um filme mudo,estrelado por Chaplin 

me desviei por impulso e fraqueza
vivi  uma ópera – western
meu drama caipira
um romance sem pé nem cabeça
uma lenda de fada e curupira 

hoje assisto a essa peça trash
sou atento espectador
mas  também sou atriz
ao final, vou aplaudir o espetáculo
no palco da vida
meu papel,
é ser feliz.

Fabi · 31 vistos · 0 comentários

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