“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens”
( Vinícius de Moraes )

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Ago212009

RECADO

Hoje a poesia cria asas
vai pousar na tua  janela
vai voando  até aí
leva um verso açucarado
meu poema apaixonado
rimas de um sonho, que esculpi

tem um apelo escancarado
é piegas , ultrapassado
não tem  escrúpulos, nem pudor
pede manhoso, afobado
num só fôlego ritmado
“meu amor, liga pra mim” 

são palavras perfumadas
adornadas numa caixa
cheirando a alecrim
é um lírio ou uma rosa ?
um  poema meio prosa?
é o retrato do meu  jardim

é um pedido , um chamado
uma promessa , uma ressalva
uma trégua no meu temor
não é carta  ao bom amigo
é confissão ao meu amado
ao meu homem, meu amor

Fabi · 29 vistos · 0 comentários
Ago112009

O LÚDICO


Cinco crianças brincavam a beira da piscina , com baldes, bonequinhos, carrinhos etc... Volta e meia pulavam na água , se agarravam na tentativa de dar um caldo uns nos outros. Voltavam à borda , pegavam objetos... viajavam... cada um na sua maionese particular . Tocavam-se , riam ... ora um  se aproximava , outro se afastava ... e assim ficaram boa parte da manhã... Observando-os tracei um paralelo com a nossa sexualidade  nos  tempos atuais. Também brincamos assim. Ficamos à beira dos sentimentos , com receio de nos molharmos ou de nos afogarmos . Nos tocamos brevemente e viajamos numa  maionese individualista com novos brinquedos...

Fabi · 45 vistos · 0 comentários
Jul232009

TRICÔ GRATINADO

Comprei na banca da esquina
um livro de receita, formal
E
nsinava a fazer tricô
com duas agulhas fininhas
Um bolo de chocolate
recheado com licor
Ensinava a fazer amor
(em pedaços)
sem cobertura
sem tempero , com pouco sal...
Tinha uma receita de pão
de sopa , de molho inglês
Receita de felicidade
De bom senso,de bom gosto
Mandava amassar tudo
Untar a forma e derramar
Sovar a manteiga e a farinha
Por no forno moderado
E depois, desenformar

 Mas não gosto de receita pronta
prefiro improvisar
Tudo que é demasiado formal
enjoa , é bobo e banal
Então, faço tricô na cama
usando uma agulha só
Duas laçadas e um nó
embolando os fios do novelo
Uso pedrinhas de gelo
...
chocolate e  licor
Não deixo a  sopa esfriar,
mantendo o forno bem esquentado
Asso o pão devagar
depois de sovar com jeitinho
não  precisa untar...
basta usar bom senso,
ingredientes de bom gosto...
ter paladar apurado
e ser um bom degustador  

Fabi · 28 vistos · 0 comentários
Jul122009

MATURAÇÃO

Deixa que chegue
Sem se fazer anunciar
Sem alardear
Sem me espantar 

Deixa ficar
Deixa assim 

Desse jeito manso
Desse jeito calado
Desse jeito desajeitado

Sem palavras
Sem rimar

Deixa como está
Deixa o olhar

A mão suada
A voz calada
O passo teso
A face rubra

O medo
A evasão
O desejo 

Um beijo?
Não..... 

Deixa o coração.....

Falar
Ouvir
Calar
Sentir 

Fabi · 25 vistos · 0 comentários
Jul042009

NOVOS RUMOS

“Tô” indo embora
Pego o navio no porto
Não olho pra trás
Sigo só
Não levo bagagem
Não quero companhia
Parto nessa viagem
Sem busca
Sem saudade
Sem amanhã
Levo meu breviário
Uma taça vazia
Os deuses do meu santuário

Um casaco de lã

O  lápis bem apontado
Um bloquinho de anotação
Um punhado de sentimentos
Uma caixa de inspiração
Vou  com os olhos fixos no horizonte
Quero que apenas o sol me aponte
O vento me leve, me conduza
Vou de alma lavada
Com passos decididos
Sem pressa de chegar
Vou feliz, muito feliz
Como um pequeno aprendiz
Vou de encontro ao mar

Tateando ondas no escuro

Tentando aprender a nadar

         


Fabi · 27 vistos · 0 comentários
Jun302009

SONHO DE MENINO

Fim de tarde, o mar bate  indiferente ao mundo...
Nos olhos azuis embaçados pela catarata, muitas lembranças, fragmentos de esperança.
No rosto, sulcos profundos,
resquícios de uma longa trajetória e um caminho no fim.
Um passo, uma parada para observar o mar.
Outro passo ancorado pelo andador de alumínio...
Outra parada.
Não  há pressa.
A enfermeira  observa.
No banco da praia, meninos sonham.....
E o mar continua batendo
As ondas que partiram
Não mais voltarão......  

-   Queria ter um Vô assim
-   Pra  quê ? Velho não serve pra nada .
- S erve sim... pra contar histórias, fazer carinho....
-  Dar dinheiro.... hahahahaha,  já pensou?  Um velho desse deve ter um monte de dinheiro...
- É... também... mas mesmo sem dinheiro ... queria um vô... vô não bate, não briga... só dá carinho... faz as vontades da gente....
-  Claro , como é que velho vai bater , não tem força...Se eu tivesse um vô e ele quisesse me bater ah.... eu enchia  ele de porrada...
-  Tá maluco ! Teu pai ou tua mãe te matavam, esqueceu que avô é pai de um dos dois...,
- Minha mãe não liga pra mim que sou novo, imagina se ia gostar de um velho... e pai......nunca ouvi falar dele.... acho que nasci de um ovo........hahahahahaha  chamei minha mãe de galinha.....
-  Ah... vamos esquecer essa história, eu não tenho, você não tem, aliás.....Conhece algum vô lá no morro ?
-   Vô....... não , acho que não... vó tem muita..... vó até a gente tem né ?... a minha eu chamo de mãe ... Hahahahahahahahahha... como é que a gente ia ter vô, se nem pai a gente sabe quem é
-     bom, a gente não sabe , mas tem uns que sabem, e também não têm......
-   Mas tem velho, e velho é avô,.......
-   Eu sei... mas eu falo esse tipo de velho, assim... andando com esse negócio, com a mão tremendo, veia azul e grossa aparecendo, com enfermeira do lado.....Ele deve ter uns cem anos.... não né ? Cem é muito, deve ter uns .... noventa !
-   doido! Como é que ia ter velho andando com esse negócio no morro, ele ia cair logo de cara hahahahhahahahahhahahaah subir pelos trilhos com esse troço....enfermeira... já pensou... veia azul...... no morro só tem velho preto , como é que vc quer ver a veia de alguém numa mão preta... você cheirou cola hoje ? Tá falando tanta besteira.....
-  Eu não cheiro mais..... Prometi pra Nossa Senhora, lá no Centro da D. Quinzinha
-  Então é isso, tá fazendo falta. hahahahahahahhaha
Você é que é maluco.....Tá certo, tira esse negócio de andar, a enfermeira e as veias da mão... não consigo lembrar de nenhum velhinho.....
-   Tem seu Francisco lá da venda, ele  é velho...
-    Mas trabalha na venda, tô falando de velho que não trabalha, velho velho, antigo, entende ?...
-   Seu Flor, não  trabalha..... vive bebendo...
-    Mas quando não tá bêbado , faz biscate, capina, cata papel pra vender...
-   Seu...... seu Totó,
_    É... seu Totó é velho ! Tem a cabeça branquinha....
-   Tá todo enrugado..... corcunda ....... a mão treme ?
-   Treme !!!!! minha mãe não gosta de fazer jogo do bicho com ele porque depois não entende nada quando chega em casa....
-   É ... seu Totó deve ser avô de alguém... quantos anos será que ele tem ? Uns noventa ?
-  Acho que tem menos , sei lá .... oitenta ?  Vamos apostar ?
-   Valendo o quê ?
-     Um cigarro !
-    Ué ,você não prometeu pra Nossa Senhora ?
-   Prometi de cola, de cigarro , não.
-   Então tá valendo! Quando a gente chegar lá em cima a gente pergunta !................

-
SEU TOTÓ  !!!!!
-  A banca já fechou, aposta só amanhã.....
-   Não,  seu Totó ,a gente não vai fazer jogo não, a gente só queria perguntar uma coisa pro senhor....
-   Então pergunta logo, moleque !
- A gente queria saber quantos anos o senhor tem
- Pra que ?
-   É para um trabalho lá da escola....
-   Bom.... esse ano , se não me falha a memória vou fazer 58.......

Fabi · 28 vistos · 0 comentários
Jun132009

RENDIÇÃO

Menino maroto
De jeito mineiro
Moleque trigueiro
De pouco falar

Menino calado
De olhos faceiros
Esmeraldas astutas
Alucina-me esse olhar 

Menino dengoso
De falsos recatos
Encanta-me aos poucos
Com esse seu gracejar

Menino bonito
De perna roliça
Instiga, me eriça
Com esse seu caminhar 

Menino ardiloso
Esse jeito gostoso
Vai chegando pra perto..
Vou  desmoronar... 

Menino audacioso
Rompe minha barricada
Não luto, me rendo
Você pode chegar 

Menino criança..
Desnude segredos
Dissipe meus medos
Estou pronta, pra te  amar  

Fabi · 25 vistos · 0 comentários
Jun042009

UM DIA MARAVILHOSO

Hoje é um dia maravilhoso
E ainda nem sei porquê
Mas sinto a vida grande
Grandiosa, talvez fosse mais correto
Mas detesto vocábulos
gramaticamente corretos
Aliás, detesto vocábulos
Parece nome de doença...

vocábulos inclusos,
vocábulos inchados
vocábulos supurados

também não gosto de gramática... 
então digo:
 

Hoje a vida me parece grande,
possivelmente meus hormônios
estejam conspirando a favor...
Devo estar ovulando,
inutilmente ,doravante...
doravante é bacana
mas não cabe,
então...
 que seja: 
Devo estar ovulando,
inutilmente, no entanto
,
já que maternidade
não me está nos planos,
doravante...
assim pode,
maldita coerência
de vocábulos purulentos... 

mas nada disso importa...
o dia hoje está maravilhoso...
e ainda não sei porquê...
mas dias maravilhosos
não precisam de porquês...
são maravilhosos
e só. 

 


Fabi · 67 vistos · 0 comentários
Maio242009

DÚBIA


Sendo eu uma ,
Torno-me dúbia pra satisfazer,
Aquele que embora uno
Multiplica-me com seu querer...  


Não há porque brigar...
Reprimir sentimentos tão puros
Camuflar a emoção latente
E viver em cima do muro...
Coração de poeta
tem facetas multicores
guarda muitos amores
e não se cansa de sonhar... 

Com um, farei projetos
Com outro,  lindos castelos
Pra um, contarei segredos
Pro outro, dos meus mistérios
Pra um, os beijos serão doces
Pro outro, serão ardentes
Pra um, guardarei meu melhor carinho
Pro outro, carícias insanas
De um, serei confidente
Do outro , uma vênus profana
Com um, o amor será terno
Com outro, volúpia de luz acesa
De um serei a rainha
Do outro, incauta princesa
De um , serei poema
Do outro, a poesia
Com um, compartilharei o banho de todo dia
Com o outro a fantasia da banheira
Pra um, levarei o café quentinho
Pro outro, um vinho espumante
De um, serei a companheira
Do outro, serei a amante 

Fabi · 20 vistos · 0 comentários
Maio172009

EPITÁFIO II

Morreu o Zé
O pobre Zé, morreu, sabe Deus de quê.
Provavelmente dessas coisas que matam
os pobres todo dia.
Os incontáveis Zés
da nossa democracia.
O Zé morreu de noite
nos braços da sua Maria
Os filhos do Zé não choraram a morte do pai

Temeram o defunto

com o mesmo temor que já tinham dele em vida
O Zé e sua trajetória estúpida
Sua  existência de nada
Sua alma vazia
Foi-se o Zé , e nos preocupamos,
Com o futuro de Maria
Por que ?
ele era tão pouco ........( ?)
Era só o Zé , que explorava Maria
Não tinha trabalho
Fazia biscate,
Bebia
O Zé cambaleava
Desmaiava no meio fio
Bêbado......
Batia nos filhos
Trepava com Maria
Gozava.................
Fazia mais filhos
Mais filhos de Zé e Maria
Outros  Zés, outras Marias
O Zé era um Zé de merda
Sequer foi notícia de jornal
Ninguém tinha dinheiro pro funeral
A morte do Zé virou despesa
O enterro, foi de vaquinha
De porta em porta
De real em real
Cada vizinho dava o que tinha
O Zé que mal conheci
Me custou cinqüenta reais.
O Zé valia tão pouco....
Era só um Zé a mais. 

Fabi · 21 vistos · 0 comentários

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